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A crise hídrica no Paraná

PROBLEMA CÍCLICO, ESCASSEZ DE ÁGUA PODE SER MITIGADA COM PLANEJAMENTO E INVESTIMENTO

No ano de 2002 foi lançada a primeira edição da Revista do Crea-PR e o assunto de capa era o Aquífero Guarani. A matéria principal destacava o potencial do maior reservatório doce do mundo e frisava que, na época, o uso ainda era tímido. O assunto teve como motivação o famoso apagão de 2001.

Capa da primeira edição da Revista do Crea-PR, de 2002.

Quase 20 anos depois a cena se repetiu. Os reservatórios tiveram baixa no volume de água a um nível crítico. As termoelétricas foram acionadas. A Região Sul foi bastante afetada e os curitibanos enfrentaram, de março de 2020 até janeiro de 2022, exatos 649 dias de rodízio no abastecimento de água. 

E os impactos vão desde os ambientais até os econômicos. “Uma grande política pública do Governo do Paraná na gestão das bacias hidrográficas e dos aquíferos seria fundamental para mitigar o problema”, defende o presidente do Crea-PR, Engenheiro Civil Ricardo Rocha. Segundo ele, é necessário haver um equilíbrio no uso das águas por grandes consumidores. “Destaco as hidroelétricas, a irrigação na agricultura, o abastecimento das grandes cidades e a indústria”.

“Crises hídricas infelizmente são cíclicas no país. As causas são variadas, desde o ritmo do clima com épocas menos chuvosas em determinadas regiões, até a falta de investimentos em planejamento e gestão de riscos em diversos setores”, aponta o Geógrafo Pedro Augusto Breda Fontão, professor adjunto no Departamento de Geografia do Setor de Ciências da Terra (CT/DGEOG) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A questão, segundo ele, está na falta de uma cultura de gestão de riscos. “Como é um fenômeno que geralmente leva décadas para se repetir, o planejamento acaba não sendo o ideal e, quando é feito, é pontual, afetando a população mais vulnerável com perdas agrícolas, falta de água, problemas na geração de energia elétrica, aumento dos custos/inflação, entre outros”, avalia Fontão. O Geógrafo lembra que em 2021 a crise hídrica ainda coincidiu com a pandemia da Covid-19, momento em que a higienização era fundamental para controle da doença.

O representante do Conselho de Consumidores da Copel Distribuição, Engenheiro Mecânico Ricardo Vidinich, concorda e contextualiza: “em ambas as situações a responsabilidade recaiu sobre o consumidor. Em 2001 a redução de consumo de 20% foi compulsória (menos na Região Sul) e quem não atingisse a meta sofria com sanções ou até cortes de energia elétrica. Na crise de 2020 não houve obrigatoriedade de redução, mas o impacto veio na conta de energia elétrica”, avalia. Vidinich é conselheiro do Crea-PR e já atuou em diversas empresas do setor elétrico.

Impacto financeiro

O custo da crise hídrica atual já foi de R$ 10,7 bilhões, além do que já foi cobrado das bandeiras tarifárias, segundo consta de consulta pública 2/2022 na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e será financiado para não interferir nas tarifas de 2022. “São cinco grandes grupos de contas, R$ 1,5 bilhão pelo saldo negativo das bandeiras, 786 milhões pela importação de energia do Uruguai e Argentina, R$ 5,1 bilhões pela contratação de novas térmicas (apenas oito meses), R$ 1,6 bilhão pelos diferimentos tarifários e R$ 1,7 bilhão pelo bônus pago aos consumidores neste mês de janeiro pela redução do consumo nos últimos 4 meses de 2021. A contratação das novas térmicas, através do PCS – Procedimento Competitivo Simplificado, foi de 775,8 MW médios, e totalizará em apenas 3,6 anos de contrato um dispêndio de R$ 40,3 bilhões, ou R$ 1.614/MWh”, afirma Vidinich.

Em março a Aneel publicou uma operação de crédito para as distribuidoras de energia elétrica, a ser financiada por um grupo de bancos públicos e privados. Determinada pela Medida Provisória n.º 1.078/2021 e pelo Decreto n.º 10.939/2022, a operação visa reduzir os impactos financeiros dos custos referentes à compra de energia elétrica no período de escassez hídrica de 2021. Já para os consumidores o custo desta medida chegará a partir de 2023.

Avanços

O medo de um apagão como o que aconteceu em 2001 voltou a rondar o Paraná. “Reconheço que houve aprendizados no setor elétrico, com destaque para a efetivação da construção de termelétricas e outras medidas voltadas a evitar futuros desabastecimentos resultantes do clima, embora gere aumento na conta de luz”, explica Fontão.

Entre os avanços de 2001 a 2020 pode-se citar a diversificação da matriz energética com o avanço na utilização de fontes renováveis, a expansão na oferta, a interligação do sistema e a maior oferta de energia termoelétrica.

Esforço conjunto

Os geógrafos, geólogos, meteorologistas e outras especialidades das Engenharias, Agronomia e Geociências têm o potencial para atuar diretamente e de forma técnica com a questão da crise hídrica. “Em geral, os profissionais vinculados ao Crea-PR são altamente qualificados e podem analisar e atuar nas questões hidrológicas, climáticas, energéticas e estruturais”, afirma Fontão.

Geógrafo Pedro Augusto Breda Fontão

Os geógrafos, geólogos, meteorologistas e outras especialidades das Engenharias, Agronomia e Geociências têm o potencial para atuar diretamente e de forma técnica com a questão da crise hídrica. “Em geral, os profissionais vinculados ao Crea-PR são altamente qualificados e podem analisar e atuar nas questões hidrológicas, climáticas, energéticas e estruturais”, afirma Fontão.

Mas o esforço não é só dos profissionais. “O governo tem o papel de incentivar o planejamento e a gestão de riscos, prevendo e prevenindo eventuais situações de crise. Além do planejamento energético e das secas, deve-se considerar todos os demais eventos extremos com potencial para causar impactos, tragédias e prejuízos à população”, adverte o professor que completa citando exemplo de chuvas extremas, inundações e deslizamentos, como “as que ocorreram no início de 2022, em cidades como Franco da Rocha (SP) e Petrópolis (RJ)”.

Padrões meteorológicos

Engenheiro Agrônomo Cleverson Andreoli

Os padrões meteorológicos têm muitas variáveis que dificultam o gerenciamento de crises como as ocorridas em 2001 e 2020. “Cito quatro fatores ligados ao clima: 1. corrente de Humboldt, que percorre o oceano Pacífico. 2. Quando há o aquecimento das águas acontece o fenômeno El Niño, que gera mais precipitação nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. 3. Quando há o esfriamento ocorre o La Niña, que ocasiona pouca precipitação. 4. Há ainda o neutro que representa regime normal de chuvas”, explica o Engenheiro Agrônomo, mestre em Ciência do Solo e doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Cleverson Andreoli. Ainda, de acordo com ele, há a corrente do Atlântico que pode provocar seca no Brasil, a questão dos rios aéreos do Amazonas e, por último, o microclima. 

Entre medidas de controle possíveis, o Engenheiro cita que é preciso aumentar as áreas permeáveis com bacias de infiltração, preservação da Amazônia e florestas, manejo pluvial, aumento de cobertura florestal no entorno dos reservatórios. “Temos uma Lei ambiental boa e o país conta com 60% de área com florestas”, explica Andreoli.

Segundo ele, a enchente e a seca são dois lados da mesma moeda – originários dos mesmos fenômenos – e no contexto das mudanças climáticas globais a expectativa é de ampliação dos extremos climáticos.

TCC aborda técnicas sustentáveis para remediação de enchentes

Engenheira Ambiental Laryssa Kaczoroski

Premiado entre os melhores TCCs pelo Crea-PR, o trabalho de conclusão de graduação da Engenheira Ambiental Laryssa Kaczoroski, da Uniuv, abordou contribuições para redução do escoamento superficial no município de União da Vitória (PR).

 “As cheias do rio Iguaçu ocorrem periodicamente de forma intensa e causam impactos negativos significativos. Esse fato me instigou em vários momentos a refletir como eu poderia, enquanto Engenheira Ambiental, contribuir e consegui, juntamente com a minha orientadora professora Mayara Ananda Gauer, alinhar a elaboração do estudo com essa temática”, explica. 

O estudo indica técnicas sustentáveis para remediação e controle de enchentes no município com trincheiras e poços de infiltração, reflorestamento e projeto de educação ambiental. A ideia, segundo a Engenheira, é ampliar o estudo em um mestrado com coleta de mais dados em campo, principalmente sobre o dimensionamento das trincheiras e poços de infiltração, para então realizar indicações das áreas mais adequadas para receber as estruturas. “Com essas e outras complementações, o projeto poderá ser apresentado ao poder municipal”, afirma.

Brasil é o país mais rico em água do mundo

A rede hidrográfica do Brasil tem 55.457 km² de rios, equivalentes a 1,66% da superfície da Terra) com uma vazão média anual em território brasileiro da ordem de 160.000 m³/s. Os dados constam do livro: A Integração das Águas – Revelando o Verdadeiro Aquífero Guarani -, lançado em 2011 e de autoria de Nádia Rita Boscardin Borghetti, José Roberto Borghetti e Ernani Francisco da Rosa Filho. (arquivo)

Segundo a publicação, um conjunto de fatores físicos e biológicos possibilita a grande riqueza hídrica nacional. As precipitações são abundantes e 90% de seus valores situam-se entre 1.000 e 3.000 mm/ano. “A precipitação média no território brasileiro é da ordem de 1.783 mm/ano. Essas chuvas, associadas à considerável geodiversidade do território nacional, são fatores determinantes da existência do imenso volume hídrico utilizável.”

Na publicação ainda é evidenciado o potencial hídrico superficial brasileiro, que representa 12,4% de toda a água doce do planeta e 43,7% do total da América do Sul, com aproximadamente 5.418 km³ /ano, quando considerada apenas a contribuição do território brasileiro, e de 8.233,0 km³ /ano, considerando-se toda a vazão da Bacia Amazônica (território nacional e estrangeiro), e uma disponibilidade hídrica social de 28.618 m³/hab./ano (sobre a vazão somente do território brasileiro) ou 43.487 m³/hab./ano (sobre a vazão total), em 2006.

Nota-se, também, que em todas as regiões brasileiras, um ou dois estados concentram, sozinhos, cerca de mais da metade do potencial hídrico da região a qual pertencem, como Amazonas e Pará, com 75% na Região Norte; Mato Grosso, com 59,4% na Região Centro-Oeste; Rio Grande do Sul, com 52% no Sul; Minas Gerais e São Paulo, com 86% no Sudeste e Maranhão e Bahia, com 65% no Nordeste.

Saiba mais sobre o assunto nos Cadernos Técnicos da Agenda Parlamentar
https://agendaparlamentar.crea-pr.org.br/download-cadernos-tecnicos

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2 comentários em “A crise hídrica no Paraná

  1. Luiz F.G.Pereira disse:

    Tanto se falou na crise hídrica e ficou bem esclarecido. Entretanto não li nenhum artigo no trato da origem da água. Que seria o olho d’água e preservação da nascente, q deve ser obrigatoriamente cuidado, protegido pela floresta do entorno. Se isso se tornar Lei e beneficiar o proprietário da área com algum tipo de compensação, acredito q solucionará muitos problemas futuros. Fazendo isso com abragência nacional e campanha do governo, pode se tornar uma realidade.

    1. Crea-PR disse:

      Olá Luiz, agradecemos sua leitura e comentário. Fica registrada a sugestão de tema para uma próxima abordagem do assunto.

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