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Porto para o futuro

Publicado em 15 de março de 2023

Por muito tempo a região com menor população e Produto Interno Bruto (PIB) do Paraná, o sudoeste do Estado deve ver sua realidade socioeconômica transformada nos próximos dez anos, graças a investimentos na fronteira do Paraná com Santa Catarina e a Argentina.

As transformações estão ligadas diretamente às Engenharias, impulsionadas por um novo porto seco instalado em Dionísio Cerqueira (SC), cidade gêmea de Barracão (PR). Ambas fazem dívida com o município argentino de Bernardo de Irigoyen, na chamada Trifronteira.

Após licitação pela Receita Federal, finalizada em agosto de 2021, a Multilog (um dos principais operadores logísticos do país), iniciou as obras da nova estrutura no final do ano passado, em uma área de 30 hectares à beira da BR-163, em Dionísio Cerqueira. Para atender ao intenso fluxo do Mercosul, o armazém terá 2 mil m² e projeção inicial de movimentar 2,5 mil caminhões/mês. A estrutura operacional também contará com: duas entradas, duas balanças e duas saídas, com sistema automático de captura das placas; pátio segregado para os produtos químicos; câmaras Frias para conferências físicas das cargas resfriadas e congeladas; sistema para liberação e consulta das cargas; circuito fechado de televisão; e área de apoio para os motoristas, despachantes e transportadores. A empresa ganhou a concessão por 30 anos e a construção será realizada em três etapas, ao longo de 15 anos. Ao final, o pátio terá capacidade para 600 caminhões.

O porto seco deverá entrar em operação a partir do próximo mês de maio. A vice-prefeita de Dionísio Cerqueira, Bianca Maran Bertamoni, tem acompanhado de perto todas as movimentações relacionadas e diz que a iniciativa é um passo importante para garantir efetividade no processo logístico.

“Não se trata apenas de Dionísio Cerqueira. O porto seco é um investimento privado de cerca de R$ 50 milhões e vai abranger toda a Trifronteira [cerca de 50 mil habitantes, somados os três municípios]. A Secretaria da Fazenda de Santa Catarina prevê a criação de 20 mil postos de trabalho em 20 anos. O governo catarinense também deve investir R$ 6 milhões para a melhoria do trevo na BR-163. O governo federal também deverá ajudar nas revitalizações”, contextualiza Bianca, acrescentando que o fluxo de 80 caminhões/dia deve saltar para 500 caminhões/dia após o início das operações.

A Trifronteira será uma alternativa aos postos secos do Rio Grande do Sul e do Paraná, como Curitiba, Foz do Iguaçu, Cascavel, Maringá, Paranavaí e Nova Londrina. Mesmo sem estar em operação, a operação movimenta a economia da fronteira. Áreas cedidas para empresas de importação e exportação estão na fase de licença ambiental. O mercado da construção civil está aquecido, com a construção de armazéns.

“Há procura grande para a contratação de pessoas. Atualmente, existem 200 postos de trabalho em aberto, principalmente no setor administrativo, para o comércio exterior. Também há deficiência na qualificação e, por isso, firmamos convênio com o Senac, para realização de cursos técnicos”, completa a vice-prefeita.

Planejamento necessário

Pedagio
Foz do Iguaçu, 30/10/2019 – Foto: Geraldo Bubniak/AEN

O Eng. Civ. Diogo Colella, gerente da Regional Pato Branco do Crea-PR e com mestrado em Engenharia Civil: Planejamento e Operação de Sistemas de Transportes pela USP, observa que o porto seco traz uma série de vantagens para o transporte de cargas, além das tributárias.

“Como está na divisa com a Argentina, agiliza a entrada e a saída de produtos para o Mercosul. Para o Governo, é mais um item de segurança, mais um ponto de controle garantindo a sanidade dos produtos que entram e saem”, comenta.

Mas, o especialista alerta para os problemas no modal rodoviário. “O porto seco gera uma concentração de demandas e será necessário melhorar a infraestrutura no entorno para o recebimento dos caminhões, área de transbordo de cargas, possível ramal ferroviário. Além, é claro, de cidades preparadas para receber os caminhoneiros, com sinalização diferenciada, estacionamentos, opções de hospedagem e alimentação, entre outras.”

Para o tráfego, o engenheiro cita detalhes como a definição de velocidade média dos veículos, aumento das terceiras faixas e instalação de balança de pesagem. “O gerenciamento da qualidade da pavimentação deverá prever períodos mais curtos para a revitalização dos trechos. Em função do tráfego de caminhões pesados e de ser uma região com forte gradiente térmico ao longo do ano [diferenças elevadas entre temperaturas máximas e mínimas registradas], órgãos como o DNIT e o DER terão que levar esses fatores em conta.”

Em alta

A presidente da Associação Empresarial da Fronteira (Ascoagrin), Raquel Schwab, acredita que o impacto do porto seco em Dionísio Cerqueira refletirá no oeste catarinense, em municípios como Cedro e Guarujá do Sul, e no sudoeste do Paraná, até Capanema.

“Muitas empresas estão instaladas virtualmente e, agora, os despachantes aduaneiros estão investindo no quadro de funcionários, nos armazéns, muitos deles sendo construídos. Áreas de terra estão sendo loteadas e vendidas. As empresas de logística e os transportadores esperam por isso. Com a projeção do aumento de mais de 20 mil empregos, deveremos ter cerca de 60 mil pessoas a mais na Trifronteira”, calcula.

Raquel adverte que serão necessárias mais moradias e que o setor de construção civil está em crescimento na região. “Hoje, existe déficit habitacional. Temos observado a vinda de muitos empresários e construtoras, para investir no segmento. Precisamos de tudo, e muito. Aqueles que tiverem olhar ousado, vão se sobrepor”, acredita.

A presidente da Ascoagrin conta que a diretoria da entidade está atenta a outras deficiências, como nos modais de transporte e tem participado das mobilizações para a implantação de um terminal ferroviário da Nova Ferroeste na região sudoeste do Paraná. Solicitações para melhorias nas rodovias PRC-280 e BR-163 também são bandeiras da associação.

Modal alternativo

O transporte por via férrea é uma alternativa que se apresenta para resolver problemas de logística e aliviar o tráfego de caminhões pesados nas rodovias. A Nova Ferroeste é um projeto de engenharia que visa a ampliação da Estrada de Ferro Paraná Oeste S/A (Ferroeste). O novo traçado, com 1.567 quilômetros, entre os municípios de Maracaju (MS) e Paranaguá (PR), terá um ramal para ligar Cascavel a Foz do Iguaçu e outro de Cascavel a Chapecó (SC).

A possibilidade de implantação de um ramal da Nova Ferroeste no sudoeste do Estado tem sido discutida por lideranças da região. Um estudo de viabilidade do projeto, encomendado por sete entidades catarinenses, contou com o apoio de entidades sudoestinas, como a Cacispar, Amsop, Fiep, Irdes, Sebrae/PR, Faep/Senar, OAB Paraná e Acipa Palmas. O tema também tem sido acompanhado de perto por representantes do Crea-PR.

Luiz Henrique Fagundes, coordenador do Grupo de Trabalho do Plano Estadual Ferroviário (GT Ferrovias), iniciativa multissecretarial e multidisciplinar, relata que a ampliação do porto seco na Trifronteira não foi contemplada nos estudos da Nova Ferroeste. Mas, ressalta que se trata de um “forte indutor logístico.”

“Efetivamente, é uma porta para o Mercosul, principalmente para o Paraguai. Hoje, o país planta e exporta muito mais soja para o Brasil do que a Argentina. Independentemente de se contar ou não com um ramal da Ferroeste na região sudoeste do Paraná, entendo que o mercado será mais eficiente na definição de terminais”, afirma o engenheiro Fagundes.

Ele salienta um fator que pode mudar o jogo, a aprovação da Lei de Autorização Ferroviária (nº 21.330), sancionada pelo governador do Paraná, em 22 de dezembro do ano passado. A legislação regulamenta o transporte ferroviário de bens e passageiros e complementa a mudança constitucional que permitiu a introdução desse modelo no Estado, seguindo os mesmos parâmetros do governo federal.

Com o marco regulatório, os pedidos de novas linhas ferroviárias podem ser encaminhados diretamente à Secretaria de Infraestrutura e Logística (SEIL), responsável pela análise dos projetos e o parecer final. “A lei é uma ruptura, uma quebra de paradigma, pois permite ao setor privado construir e operar seus trechos de ferrovia, de forma integrada com a Ferroeste. Uma das possibilidades é fazer a conexão do porto seco à ferrovia, com a construção de short lines (acessos) ou integrar os armazéns desta forma”, explica Fagundes.

No momento, o projeto da Nova Ferroeste aguarda aprovação da licença ambiental, por parte do Ibama. A expectativa é de que os pedidos adicionais do Ibama sejam atendidos até o próximo mês de abril e o leilão possa ser marcado no início de 2024. “O transporte férreo resulta em 30% de redução do custo logístico, em média. De US$ 60,00 por tonelada, o custo cai para cerca de US$ 40,00. Um vagão tira de três a quatro caminhões, e uma composição pode ter até 140 vagões. Este é o grande ganho da infraestrutura”, exemplifica o coordenador do GT Ferrovias.

Pontos positivos

Robson Leandro Mafioletti, superintendente do Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), entende que o novo porto seco na Trifronteira e a possibilidade de instalação de outro em Santo Antonio do Sudoeste tem importância estratégica. Afinal, há várias cooperativas com investimentos em andamento ou em projetos.

“Por muito tempo, o Sudoeste não recebeu a devida prioridade, situação que está mudando. Muitas cooperativas estão se instalando na área, o que vai demandar investimentos como a melhoria das rodovias. O porto seco propiciará agilidade nos processos”, avalia.

Mafioletti, engenheiro agrônomo de formação e ex-conselheiro do Crea-PR, salienta o os pontos fortes da região. “Tem grande potencial, por ser forte na produção agrícola e de proteína animal, contar com mão de obra e contar com um entroncamento rodoviário que favorece a logística. É uma soma que atrai as cooperativas agrícolas”, resume o superintendente da Ocepar.

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