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INCINERAÇÃO DE RESÍDUOS: SOLUÇÃO TECNOLÓGICA OU RISCO AMBIENTAL?

Publicado em 26 de maio de 2026

PRESSIONADOS PELO FIM DOS LIXÕES E PELA NECESSIDADE DE DAR DESTINO ADEQUADO AOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS, MUNICÍPIOS
ANALISAM O TRATAMENTO TÉRMICO COMO ALTERNATIVA AOS ATERROS. ESPECIALISTAS ALERTAM PARA RISCOS AMBIENTAIS, ALTOS CUSTOS E DEFENDEM QUE A ENGENHARIA AVALIE COM
RIGOR A VIABILIDADE DESSAS TECNOLOGIAS.

A destinação de resíduos sólidos urbanos tornou-se um dos maiores desafios da gestão pública brasileira. Com o avanço das exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e o encerramento gradual dos lixões a céu aberto, municípios passaram a buscar soluções capazes de reduzir o volume de rejeitos destinados aos aterros sanitários.


Nesse cenário, a incineração, tecnologia que utiliza altas temperaturas para queimar resíduos, voltou ao centro do debate. Defensores apontam que o processo pode reduzir drasticamente o volume do lixo e ainda gerar energia. Críticos, no entanto, alertam para riscos ambientais associados às emissões atmosféricas e para os altos custos de implantação e operação. A questão que se impõe é direta: a incineração representa uma solução estrutural para a crise dos resíduos urbanos ou pode criar um novo
passivo ambiental no futuro?


Para especialistas ouvidos pela reportagem, a resposta exige cautela, análise técnica rigorosa e compreensão de que o tratamento térmico deve ser apenas uma etapa dentro de um sistema mais amplo de gestão integrada de resíduos.

Imagem Ilustrativa

A PRESSÃO SOBRE OS MUNICÍPIOS

A legislação brasileira estabelece uma hierarquia clara para a gestão de resíduos: primeiro deve-se evitar a geração, depois reduzir,
reutilizar e reciclar. Apenas o que não pode ser reaproveitado deve receber tratamento ou disposição final.
Mesmo assim, muitos municípios ainda enfrentam dificuldades para cumprir essas diretrizes. O encerramento dos lixões e o aumento da pressão por soluções ambientalmente adequadas levaram gestores públicos a buscar tecnologias capazes de reduzir rapidamente o volume de resíduos.


Nesse contexto, a incineração aparece como alternativa atrativa. Ao submeter o lixo a temperaturas superiores a 800 °C, o processo reduz significativamente a massa de resíduos, transformando-os em gases e cinzas. Mas o que parece uma solução simples esconde uma série de desafios técnicos.

A EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E O DEBATE CIENTÍFICO

Segundo o professor Carlos Itsuo Yamamoto, doutor em Engenharia Química e docente da Universidade Federal do Paraná, a incineração foi amplamente adotada no hemisfério norte como resposta ao crescimento da geração de resíduos urbanos.


“Europa e Estados Unidos já possuem décadas de experiência com essa tecnologia. No Brasil, historicamente, a solução sempre foi empilhar o lixo em lixões, por ser mais barato”, explica.


Com o tempo, os aterros sanitários passaram a substituir os lixões por reduzirem problemas de odor, vetores de doenças e contaminação ambiental. Ainda assim, o modelo enfrenta limitações.“Os aterros têm vida útil limitada e ocupam grandes áreas. Além disso, funcionam como grandes reatores biológicos, gerando chorume e biogás durante décadas”, afirma Yamamoto.


Nesse cenário, o tratamento térmico surge como alternativa para reduzir drasticamente o volume de resíduos destinados à disposição final. No entanto, o professor ressalta que o processo envolve riscos ambientais significativos. O principal ponto de preocupação está relacionado à formação de compostos altamente tóxicos durante a queima de resíduos. Entre eles estão as dioxinas e os furanos, substâncias classificadas como altamente persistentes e potencialmente cancerígenas. Esses compostos podem se formar quando materiais contendo cloro, como PVC, são queimados em determinadas faixas de temperatura

“O lixo urbano contém diversos materiais que favorecem a formação dessas substâncias, como plásticos clorados e alguns produtos químicos presentes em embalagens e pallets tratados”, explica Yamamoto.


Segundo ele, a separação completa desses materiais antes da incineração é praticamente inviável na realidade brasileira, especialmente devido ao modelo atual de coleta. “O lixo chega compactado nos caminhões. Separar completamente materiais como PVC, Teflon ou embalagens tratadas é extremamente difícil.”


O risco se torna ainda maior quando o processo não é conduzido com controle rigoroso de temperatura e condições de
combustão.
“Existem faixas de temperatura que favorecem a formação dessas substâncias tóxicas. Se o processo não for cuidadosamente
controlado, elas podem ser liberadas na atmosfera”, afirma.

IMPACTOS NA SAÚDE PÚBLICA

De acordo com estudos internacionais, incluindo aqueles conduzidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), apontam que a exposição prolongada a dioxinas e compostos semelhantes pode estar associada a diversos problemas de saúde, incluindo câncer, distúrbios hormonais e impactos no sistema imunológico.


Evidências científicas internacionais, incluindo estudos da Organização Mundial da Saúde e da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, indicam que áreas situadas na chamada “pluma de dispersão”, regiões atingidas por emissões atmosféricas de chaminés industriais, podem apresentar, ao longo do tempo, aumento na incidência de determinadas doenças, especialmente respiratórias, cardiovasculares e alguns tipos de câncer.


“Esses impactos não aparecem imediatamente. Podem levar cinco, dez ou até mais anos para se manifestar”, explica.


Para ele, a questão envolve também um debate econômico.
“Resolver o problema do lixo e depois pressionar o sistema público de saúde com novos casos de doenças não faz sentido do ponto de vista de política pública.”

O DESAFIO DO CONTROLE TECNOLÓGICO

Do ponto de vista técnico, a incineração segura exige um conjunto sofisticado de controles de engenharia.
Entre os principais requisitos estão:

  • Controle rigoroso de temperatura;
  • Tempo adequado de residência dos
    gases;
  • Controle da presença de oxigênio;
  • Sistemas avançados de filtragem e tratamento de emissões.

O problema é que esses sistemas elevam significativamente os custos de operação.
“Para remover dioxinas e furanos do gás emitido, muitas vezes seria necessário passar grandes volumes de gases por filtros especiais, como leitos de carvão ativado. Isso exige equipamentos caros e alto consumo energético”, explica Yamamoto.


Outro desafio é o monitoramento das emissões. Embora poluentes como monóxido de carbono e óxidos de nitrogênio
possam ser monitorados continuamente, a medição de dioxinas e compostos orgânicos complexos exige análises laboratoriais sofisticadas e caras.

Imagem Ilustrativa

MUNICÍPIOS ESTÃO PREPARADOS?

Para o engenheiro ambiental Felipe Marcel Dalmas Kotwiski, coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do Crea-PR, a realidade brasileira ainda apresenta limitações importantes.


Segundo ele, a maioria dos municípios não possui estrutura técnica suficiente para operar sistemas complexos de tratamento térmico.
“A operação exige equipes altamente especializadas, monitoramento ambiental contínuo e sistemas avançados de controle de
emissões”, afirma.


Kotwiski destaca que, no Brasil, incineradores são utilizados principalmente para tratar resíduos de serviços de saúde, onde a destruição de agentes patogênicos é essencial. No caso dos resíduos sólidos urbanos, outras tecnologias têm sido mais comuns, como:

  • Coprocessamento em fornos de cimento;
  • Pirólise;
  • Gaseificação.

Essas alternativas podem reduzir o volume de resíduos e permitir algum grau de recuperação energética do Paraná, com participação do laboratório Lacaut – Centro Multiusuário de Tecnologia. O projeto, inicialmente desenvolvido por um
aluno da instituição, propõe um sistema de processamento térmico em múltiplas etapas.
Diferentemente da incineração convencional, o processo utiliza diferentes temperaturas, tempos de residência e níveis de oxigênio para minimizar a formação de compostos tóxicos.


“O objetivo é fugir da faixa de temperatura que favorece a formação de dioxinas e furanos”, explica Yamamoto.

Além de reduzir emissões, o processo também permite aproveitar a energia térmica gerada.
“O gás quente resultante pode ser utilizado para gerar vapor, secar materiais ou produzir energia elétrica.”


Outra vantagem do modelo desenvolvido é a redução significativa do volume de resíduos finais. Após o processamento térmico, restam apenas cinzas que representam cerca de 10% a 15% da massa original do lixo. Essas cinzas foram classificadas como resíduo classe II, não perigoso.

Imagem Ilustrativa

FISCALIZAÇÃO E CAPACIDADE INSTITUCIONAL

Outro ponto sensível é a capacidade de fiscalização. Embora o país possua base normativa para regular emissões atmosféricas e processos industriais, a estrutura de monitoramento ainda é desigual entre estados e municípios.


“Um dos principais gargalos está na disponibilidade de equipes técnicas especializadas e na infraestrutura necessária para
análise de emissões atmosféricas complexas”, explica Kotwiski.


Sem monitoramento adequado, o risco é que falhas operacionais passem despercebidas. Isso pode resultar na emissão de poluentes perigosos, como material particulado fino, metais pesados e compostos orgânicos persistentes.

ALTERNATIVAS TECNOLÓGICAS EM DESENVOLVIMENTO

Apesar das críticas à incineração tradicional, especialistas apontam que o tratamento térmico de resíduos continua sendo uma área de intensa inovação tecnológica. Uma das pesquisas mais promissoras no país está sendo conduzida na Universidade Federal Pesquisas conduzidas na universidade indicam que elas podem ser incorporadas na produção de materiais cerâmicos, como tijolos e telhas.


“O material pode ser misturado à argila sem comprometer as propriedades mecânicas do produto”, explica Yamamoto.


Se essa aplicação for ampliada em escala industrial, o sistema poderia alcançar um cenário de “resíduo zero”, reduzindo drasticamente a necessidade de aterros sanitários.

A IMPORTÂNCIA DA GESTÃO INTEGRADA

Apesar das possibilidades tecnológicas, especialistas concordam que nenhuma solução isolada resolverá o problema dos resíduos urbanos.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece que a recuperação energética deve ocorrer apenas após a implementação de estratégias prioritárias, como redução da geração, reciclagem e compostagem.


Segundo Kotwiski, municípios podem alcançar resultados expressivos ampliando programas de coleta seletiva e tratamento
da fração orgânica.
“A compostagem e a reciclagem podem reduzir significativamente o volume de resíduos destinados à disposição final”, afirma.


A fração restante, chamada de rejeito A fração restante, chamada de rejeito, poderia então ser tratada por tecnologias térmicas ou encaminhada para coprocessamento industrial.

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