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TORNADOS NO SUL DO BRASIL E OS DESAFIOS PARA A ENGENHARIA, O PLANEJAMENTO URBANO E A GESTÃO PÚBLICA

Publicado em 25 de maio de 2026

AMPLIAÇÃO DO MONITORAMENTO REVELA MAIOR NÚMERO DE REGISTROS, MAS ESPECIALISTAS ALERTAM QUE FENÔMENO AINDA É SUBNOTIFICADO E EXIGE NOVAS ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO, PROJETO ESTRUTURAL E GESTÃO TERRITORIAL.

Dra. Karin Linete Horne

Por muito tempo, os tornados foram considerados fenômenos raros no Brasil. Hoje, essa percepção mudou. Pesquisas científicas
e o aprimoramento do monitoramento meteorológico vêm demonstrando que o país, especialmente a região Sul, possui condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades severas capazes de gerar esses eventos extremos.

De acordo com estudos e mapeamentos realizados por pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), cerca de
70% dos tornados registrados no território brasileiro ocorrem no Sul, abrangendo principalmente áreas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A região integra um corredor atmosférico onde se encontram massas de ar frio vindas do Sul e ar quente e úmido transportado da Amazônia, combinação que favorece a formação de tempestades intensas

Esse cenário, no entanto, levanta uma questão central para pesquisadores e profissionais: os tornados estão realmente aumentando ou estamos apenas registrando melhor fenômenos que sempre existiram?

Para a geógrafa Dra. Karin Linete Hornes, professora do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa
(UEPG), o crescimento no número de registros não significa necessariamente um aumento proporcional na ocorrência dos eventos.

“Os dados indicam um aumento no número de registros de tornados, embora esse crescimento não seja exponencial. Observa-se
que as últimas décadas concentram maior número de ocorrências registradas; contudo, esse aumento também está relacionado ao
crescimento populacional, à maior ocupação do território e ao avanço das tecnologias de monitoramento”, explica.

Segundo ela, ainda faltam séries históricas longas e consistentes para estabelecer conclusões definitivas sobre a evolução desse fenômeno.
“Ainda é necessário dispor de uma normal climatológica robusta e de séries históricas mais consistentes para análises conclusivas
sobre a possível relação entre o aumento das ocorrências e as mudanças climáticas”, afirma.

UM CORREDOR ATMOSFÉRICO FAVORÁVEL A TEMPESTADES SEVERAS

O Sul do Brasil reúne características atmosféricas semelhantes às de outras regiões do planeta conhecidas pela ocorrência de tornados.
A principal delas é o contraste entre massas de ar com características muito diferentes.

Conforme explica Hornes, o encontro entre ar polar e ar quente e úmido vindo da Amazônia cria condições ideais para tempestades intensas.

“A interação entre massas de ar polar e massas de ar quente e úmidas provenientes da Amazônia cria fortes contrastes térmicos e
elevada instabilidade atmosférica. Essas condições favorecem a formação de tempestades severas organizadas, especialmente supercélulas convectivas”, afirma.

Essas tempestades apresentam uma característica particular: uma corrente ascendente rotacional, chamada mesociclone, que pode
gerar tornados.

Nesse ambiente, fenômenos como granizo, ventos extremos, micro e macroexplosões atmosféricas (Downbursts) também se tornam mais frequentes.

Outro fator relevante é o chamado cisalhamento vertical do vento, que ocorre quando a velocidade ou a direção do vento varia com
a altitude.
Essa variação favorece a rotação das tempestades, aumentando o potencial de formação de tornados.

EPISÓDIOS RECENTES DE TORNADOS NO PARANÁ

Embora muitas ocorrências passem despercebidas ou sejam classificadas como vendavais, o Paraná possui um histórico relevante
de tornados.
Um dos episódios mais marcantes ocorreu em Marechal Cândido Rondon, no oeste do estado, no dia 19 novembro de 2015, onde um tornado provocou destruição significativa e motivou estudos posteriores sobre a dinâmica desses fenômenos.
Outro caso recente foi registrado em Rio Bonito do Iguaçu, no dia 07 de novembro de 2025, onde um tornado associado a uma supercélula causou danos estruturais em diversas edificações.

Segundo pesquisadores, muitos outros eventos podem ter ocorrido sem registro oficial, principalmente em áreas rurais.
“A probabilidade de registro é menor quando o evento ocorre em áreas afastadas. Muitas comunidades resolvem os danos por conta própria, e os fenômenos acabam não sendo oficialmente catalogados”, explica Hornes

Imagem Ilustrativa

SUBNOTIFICAÇÃO AINDA É UM GRANDE DESAFIO

A ausência de registros sistemáticos é um dos principais obstáculos para compreender a real frequência dos tornados no Brasil.
Historicamente, a catalogação desses fenômenos depende principalmente da atuação da Defesa Civil e do relato da população.

“Não se trata apenas de ausência de registros, mas também de registros inadequados. Muitas vezes é difícil diferenciar danos provocados por tornados daqueles causados por outros eventos severos, como downbursts ou vendavais”, afirma a pesquisadora.

Esse processo exige análise detalhada de padrões de danos, dados meteorológicos e imagens de radar e satélite.

Para enfrentar esse desafio, pesquisadores da UEPG vêm construindo um banco de dados específico para tornados. O projeto, conhecido popularmente como “Caçadores de Tornados”, reúne informações provenientes de órgãos públicos e relatos da
população.

“O objetivo é construir um banco de dados com registros de atividades tornádicas e compreender melhor os padrões dessas tempestades”, explica Hornes.

ENGENHARIA DIANTE DE UM FENÔMENO EXTREMO

Se para a meteorologia os tornados representam um desafio científico, para a engenharia eles representam um desafio estrutural.
Rajadas de vento associadas a tornados podem ultrapassar 300 km/h, valores muito superiores aos utilizados no dimensionamento
tradicional de edificações. Segundo o engenheiro mecânico Edson Haluch, presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape), as normas brasileiras contemplam ações de vento, mas não tratam especificamente o fenômeno tornado

“Sim, as normas da ABNT contemplam a resistência estrutural a ações de vento, inclusive vendavais em sentido amplo. Porém,
não contemplam de forma específica e completa o fenômeno tornado como caso normativo autônomo de dimensionamento”, afirma.

Na prática, isso significa que as edificações brasileiras são projetadas para resistir ao chama do vento ordinário de projeto, mas não
necessariamente a eventos extremos.

“A norma brasileira atual contempla plenamente a ação do vento ordinário e contempla parcialmente eventos severos, mas
não trata o tornado como ação excepcional autônoma, com parâmetros próprios de pressão, trajetória, sucção, rotação e
transitoriedade”, explica.

Para o engenheiro, essa limitação indica a necessidade de evolução normativa.
“A literatura técnica recente tem apontado a necessidade de atualização das normas para eventos extremos não-sinóticos
mais severos.”

DANOS ESTRUTURAIS CADA VEZ MAIS FREQUENTES

O aumento de eventos climáticos extremos tem sido observado também nas perícias de engenharia.
Segundo Haluch, mudanças no perfil dos danos estruturais já vêm sendo identificadas.

“Diversos estudos têm demonstrado aumento na frequência ou intensidade de eventos de vento extremo, o que tem refletido diretamente no crescimento de danos estruturais em edificações e infraestrutura.”
Ele destaca que essa análise deve considerar três fatores principais:

  • Mudanças na climatologia de eventos
    extremos;
  • Aumento da exposição das edificações;
  • Limitações dos parâmetros normativos
    históricos.

“Logo, as normas técnicas precisam estar alinhadas com as mudanças climáticas”, afirma.

PLANEJAMENTO URBANO E VULNERABILIDADE TERRITORIAL

Além da engenharia estrutural, o fenômeno dos tornados também desafia o planejamento urbano.
A expansão das cidades em áreas vulneráveis aumenta a exposição a desastres naturais.
Edificações frágeis, redes elétricas aéreas e infraestrutura urbana pouco resiliente ampliam os impactos de tempestades
severas.

Outro problema é a ausência de uma cultura de abrigos antitornados no Brasil. Em países como os Estados Unidos, residências
e prédios públicos frequentemente possuem salas seguras ou abrigos subterrâneos.
No Brasil, essa estratégia ainda é rara. Em geral, a orientação da Defesa Civil é buscar abrigo em ambientes internos e estruturados, como banheiros ou corredores sem janelas.
Para especialistas, essa realidade evidencia a necessidade de incorporar a gestão de risco climático ao planejamento urbano.

Infraestruturas essenciais, como hospitais, escolas e sedes de defesa civil, deveriam possuir maior resistência estrutural para garantir funcionamento durante desastres.

Imagem Ilustrativa

Imagem Ilustrativa

Existe ainda um outro desafio importante a ser considerado: a capacidade de alerta.
Diferentemente de furacões, que podem ser monitorados com vários dias de antecedência, os tornados costumam se formar rapidamente.
Em muitos casos, os avisos podem ser emitidos apenas minutos antes do evento. Isso exige integração entre radares meteorológicos, centros de previsão e sistemas de defesa civil.
No Brasil, o número de radares meteorológicos ainda é considerado insuficiente para monitorar tempestades severas com precisão. Por isso, especialistas defendem maior investimento em infraestrutura de monitoramento e pesquisa.

O PAPEL DA ENGENHARIA PREVENTIVA

Diante desse cenário, cresce a importância da engenharia preventiva e da adaptação das cidades às mudanças climáticas.
O engenheiro Haluch destaca que o sistema profissional tem papel importante nesse processo.

“O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná exerce papel institucional relevante na promoção da qualidade
técnica, da segurança e da responsabilidade profissional na engenharia, inclusive no que se refere à adoção de práticas construtivas
mais resilientes.”

Embora o Conselho não seja responsável pela elaboração das normas técnicas, atribuição da ABNT, ele atua na disseminação de conhecimento e na fiscalização profissional.

“Por meio de seminários, capacitações técnicas, publicações e debates institucionais, o Conselho estimula a atualização
profissional e a discussão sobre adaptação das estruturas aos novos desafios climáticos”, afirma.

Outro instrumento fundamental é a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), que garante que projetos e obras sejam conduzidos por profissionais habilitados.

PodCrêa – Episódio 73 – Tornados no Sul do Brasil: mapeamento, riscos e prevenção

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