SISTEMA DE PLANTIO DIRETO EM HORTALIÇAS (SPDH) GANHA ESPAÇO NO CAMPO E FORTALECE A SUSTENTABILIDADE
Técnica conservacionista avança no Paraná e no Brasil ao reduzir a erosão, melhorar o uso da água e aumentar a resiliência das lavouras frente às mudanças climáticas.
O cultivo de hortaliças no Brasil passa por um momento de transformação. Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela degradação do solo e pelo aumento dos custos de produção, o Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) surge como uma alternativa cada vez mais consistente ao modelo convencional de preparo do solo.
Inspirado no Sistema Plantio Direto (SPD), amplamente consolidado nas grandes culturas, o SPDH adapta os princípios conservacionistas à realidade da olericultura, setor historicamente marcado por intenso revolvimento do solo.

Segundo o engenheiro agrônomo Lucas Scheidt Feltz, o foco central do sistema é a conservação do solo (Andrade et al., 2018). “O plantio é feito sobre resíduos de culturas de cobertura ainda verdes, sem o revolvimento do solo, sempre buscando manter o solo coberto e protegido”, explica.
De acordo com a acadêmica e bolsista de iniciação científica pelo IDR-Paraná, Milena Santos de Oliveira, o SPDH é uma forma de melhorar até mesmo a saúde do solo. Ela relata que, durante a graduação, pouco se fala nessa técnica e que a conheceu de fato ao começar a trabalhar no projeto do IDR. Isso evidencia a urgência e a necessidade de expansão do tema.
Do preparo intensivo à conservação do solo: o caminho até o SPDH
Durante décadas, o cultivo de hortaliças no Brasil seguiu um mesmo roteiro. O solo era preparado de forma intensa, com arações, gradagens e o levantamento de canteiros — práticas que garantiam bons resultados imediatos e ajudavam a viabilizar a produção no curto prazo. Com o passar do tempo, porém, esse modelo começou a mostrar seus limites.

A repetição do preparo pesado do solo trouxe consequências cada vez mais visíveis no campo. A erosão se intensificou, nutrientes passaram a ser perdidos com maior facilidade, a compactação reduziu a capacidade de infiltração da água e o solo descoberto ficou mais exposto à evapotranspiração. “O solo descoberto fica desprotegido, favorecendo a erosão e grandes perdas de água, o que aumenta a necessidade hídrica e pressiona as reservas naturais”, explica Josiane Bürkner dos Santos, doutora em Agronomia e pesquisadora do IDR-Paraná.
A esses problemas somaram-se outros desafios estruturais da olericultura, como a escassez de mão de obra, o elevado consumo de combustível e a crescente vulnerabilidade das lavouras diante de eventos climáticos extremos, como chuvas intensas em curtos períodos ou estiagens prolongadas. O sistema que antes funcionava passou a exigir cada vez mais insumos e esforço para entregar os mesmos resultados.
Enquanto isso, em outra frente da agricultura brasileira, uma mudança já havia mostrado que era possível produzir de forma diferente. O Sistema Plantio Direto (SPD), consolidado nas grandes culturas, como a soja, provou que manter o solo coberto e reduzir o revolvimento traz ganhos ambientais e produtivos. A lógica era simples: menos intervenção, mais proteção e um ambiente de produção mais equilibrado.
A pergunta passou a ser inevitável: por que não adaptar esse modelo à olericultura?
Foi assim que o Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) começou a ganhar espaço. A adaptação dos princípios do plantio direto para as hortaliças avançou nos últimos anos e chegou ao Paraná em 2018, por meio das ações de extensão do IDR-Paraná, a partir de experiências já consolidadas pela Epagri, em Santa Catarina, onde a técnica vem sendo desenvolvida há cerca de três décadas.
“O SPDH nasceu inspirado no SPD e tem crescido muito em função da necessidade que os agricultores têm sentido de proteger seu maior patrimônio, o solo”, destaca Dra Josiane.
A intensificação das mudanças climáticas apenas acelerou esse processo, transformando o que antes era uma alternativa em uma resposta concreta aos novos desafios da produção de hortaliças.
Os princípios que sustentam o sistema de plantio direto em hortaliças
O Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) se estrutura a partir de três princípios básicos, que devem ser adotados de forma integrada para garantir a eficiência do sistema:
- Revolvimento localizado do solo, restrito apenas ao sulco ou berço de plantio, preservando a estrutura física e biológica do solo;
- Diversificação de espécies e rotação de culturas, com alternância entre culturas comerciais e plantas de cobertura;
- Cobertura permanente do solo, por meio da manutenção de palhada.
De acordo com o engenheiro agrônomo Lucas Scheidt Feltz, o não revolvimento do solo traz ganhos diretos à produção. “Ao optar por não revolver o solo, é possível preservar sua estrutura, melhorar a infiltração de água e garantir melhor disponibilidade de oxigênio para as raízes”, explica.

A cobertura permanente protege o solo do impacto das gotas de chuva e da ação do vento, reduz perdas por evapotranspiração e contribui para o aumento da matéria orgânica. Esse processo favorece a atividade dos microrganismos e melhora a retenção de água e nutrientes, ativando importantes serviços ecossistêmicos.
Os benefícios do sistema manifestam-se em diferentes dimensões:
1. Ambiental – o sistema reduz significativamente a erosão e as perdas de solo e nutrientes, melhora a infiltração e o armazenamento de água e diminui o risco de contaminação de corpos d’água.
Outro aspecto relevante é o potencial de mitigação das mudanças climáticas. “A redução do preparo intensivo solo diminui as emissões de CO₂, e a manutenção da cobertura vegetal favorece o acúmulo de carbono orgânico no solo”, ressalta Josiane Bürkner dos Santos.
2. No campo econômico, embora a implantação possa exigir maior planejamento e investimento inicial, o SPDH tende a se tornar mais vantajoso ao longo do tempo, com redução de gastos com combustível, operações mecanizadas, água e fertilizantes.
3. Do ponto de vista produtivo, o ambiente edáfico mais equilibrado reduz o estresse hídrico e térmico das plantas, resultando em maior estabilidade de rendimento.
Implantação, desafios técnicos e necessidade de planejamento
Na prática, a adoção do SPDH exige conhecimento técnico e planejamento detalhado. Entre os principais desafios estão a produção e manutenção de palhada em quantidade suficiente, o manejo adequado da fertilidade do solo e a adaptação de máquinas às condições do sistema.
“Hoje, um dos maiores entraves é a falta de maquinário adequado. Precisamos sair do improviso para uma produção tecnicamente segura”, pontua Lucas Feltz.
O sistema também demanda acompanhamento constante, com atenção à rotação de culturas, escolha criteriosa das plantas de cobertura e monitoramento da umidade, pragas e doenças.
Panorama atual, metas e perspectivas para o Paraná e o Brasil
Ainda em processo de consolidação, o Sistema de Plantio Direto em Hortaliças desponta como um caminho estratégico para o futuro da olericultura brasileira. Sua expansão dependerá do fortalecimento da pesquisa, da capacitação técnica, do desenvolvimento de máquinas adequadas e da ampliação de políticas públicas de incentivo.
Para se ter uma ideia do cenário atual, o Brasil possui entre 800 mil e 1 milhão de hectares cultivados com hortaliças, mas menos de 1% dessa área utiliza o SPDH. Em Santa Catarina, onde a técnica está mais consolidada, o sistema já ocupa cerca de 3 mil hectares, representando aproximadamente 10% da área cultivada nas regiões onde foi difundido.
O Plano ABC+, política pública federal brasileira aplicada em todo o território nacional, estabelece como meta a conversão de 80 mil hectares do sistema convencional para o SPDH, indicando amplo potencial de expansão.
No Paraná, o sistema ainda está em fase inicial. “Estamos no começo das pesquisas de adaptação, com experimentos a campo em diferentes condições edafoclimáticas”, afirma Josiane. Segundo ela, a Região Metropolitana de Curitiba reúne condições favoráveis para a expansão, tanto pela demanda do mercado quanto pelo perfil dos consumidores.

Mas, para que esse sistema, de fato, se consolide, mais do que uma mudança operacional, o SPDH exige uma nova forma de pensar a produção agrícola. O uso de plantas de cobertura deve ser encarado como investimento de longo prazo.
“O plantio de adubos verdes é uma fase de restauração da capacidade produtiva do solo, que traz mais rentabilidade e segurança no futuro”, enfatiza Dra. Josiane.
Nesse contexto, a assistência técnica é considerada fundamental para o sucesso do sistema, acompanhando o produtor desde a implantação até o manejo contínuo.
Para os produtores que ainda têm receio, Feltz deixa uma mensagem direta: “O SPDH precisa ser planejado. Em um sistema caro e intensivo como a produção de hortaliças, planejamento, análise de solo, insumos de qualidade e boa assistência técnica são fundamentais para obter resultados positivos”.
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