A vez do Litoral
CREA-PR quer projeto de desenvolvimento para as cidades litorâneas do Paraná

O Seminário Ressaca de Matinhos: Futuros Possíveis para o Litoral Paranaense, realizado pelo CREA-PR entre os dias 10 e 3 de fevereiro, estabeleceu um marco na discussão do destino das
cidades litorâneas no Paraná. No evento, foi elaborado documento que expressa a urgência de se articular políticas públicas de sustentabilidade. “É a primeira vez que a comunidade de Matinhos pode discutir profundamente assuntos relacionados ao gerenciamento costeiro do litoral”, garante o físico Florêncio de Oliveira Filho, presidente da Associação dos Proprietários e Moradores dos Balneários Flamingo e Riviera Asflar. Foram abordadas desde questões de saúde à ocupação geográfica. Florêncio acredita que a Carta do Litoral possibilitou o primeiro passo na discussão do controle social. Tanto é que já estão sendo agendadas várias reuniões pós-seminário para concretizar o que foi discutido e iniciado no evento.
Para entender a importância desse seminário, é preciso lembrar as ressacas que vêm assolando o litoral paranaense nos últimos anos, principalmente a que destruiu parte da Avenida Atlântica e várias casas e comércios á beira mar de Matinhos, em maio de 2001. O CREA-PR já havia reunido em Curitiba, em novembro do ano passado, autoridades e comunidade para discutir soluções que evitem os danos causados pelas ressacas no litoral.
A iniciativa do CREA-PR foi estimulada pela comunidade de Matinhos, representada pela Associação dos Proprietários e Moradores dos Balneários de Flamingo e Riviera- Asflar, que reclamava a falta de comunicação com a Suderhsa – Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, órgão do governo responsável pelas obras que exige a praia de Matinhos.
Engodamento.
O físico Florêncio de Oliveira Filho, vice-presidente da Asflar e membro da coordenação do Comitê Pró-Recuperação do Litoral, disse que a solução que a Suderhsa queria dar ao caso é cara e apenas paliativa. A Suderhsa quer investir no projeto do engenheiro Eduardo Gobbi que recomenda o processo chamado “engodamento artificial” e consiste em deslocar a areia do fundo do mar para “engordar” a praia por meio de dragagem.

Os engenheiros Guilherme Lindroth e Mário Forcadell, que fizeram um projeto de recuperação dos balneários de Matinhos e Caiobá, são contrários ao engodamento artificial porque, além de ser uma agressão ao meio ambiente – já que é necessário explorar jazidas de areia que podem comprometer o ecossistema local -, o custo da obra é muito alto, incluindo os custos de manutenção.
Lindroth usou gabiões (barreiras de pedras porosas embaladas por telas de aço para amortizar a energia das ondas), processo mais bara to, em seu projeto em Caiobá, onde foram construídos pequenos espigões para acelerar a deposição natural da areia. Nesse projeto, Lindroth possibilitou uma economia para o município de Matinhos de exatamente 900 mil dólares. É próximo desse valor a economia que pode ser atingida também nas obras que devem ser realizadas nos balneários de Flamingo e Riviera, que possuem as mesmas características da praia de Caiobá. Já para a praia de Matinhos (centro), Lindroth acredita que uma das soluções pode ser a construção de uma marina, já que não é possível resgatar a praia com as tecnologias aplicadas nas outras praias.

O CREA-PR acredita que o problema não se trata apenas de valores, mas da eficiência e do peso ambiental que a obra refletirá. “E quando se fala ambiental, não se refere apenas ao meio ambiente, mas também aos &tores sociais. Por isso acreditamos que a discussão deva ser aberta a toda a sociedade”, comentou na época o arquiteto Roberto Sampaio. O presidente do CREA-PR, Luiz Antônio Rossafa, disse que esse problema causado pelo mar é consequência do mau planejamento urbano de Marinhos, que permitiu a ocupação e a construção inadequadas da Avenida Atlântica. Rossafa estimula o levantamento dos responsáveis pela construção da avenida para responder pelos prejuízos do município.
A comunidade de Matinhos encaminhou ao CREA-PR um abaixo assinado pedindo o levantamento de responsabilidade técnica pela construção da Avenida Atlântica no trecho Flamingo/Riviera à Praia de Leste. “Além dos prejuízos que os moradores e o comércio estão tendo com a destruição, existe outro aspecto que é a perda do investimento público”, comentou Florêncio de Oliveira Filho.
Carta do Litoral
O documento elaborado no Seminário Ressaca de Matinhos: Futuros Possíveis para o Litoral Paranaense, realizado pelo CREA-PR em Caiobá, intitulado Carta do Litoral, é mais do que uma solução ao problema da ressaca. A Cana do Litoral possui 28 sugestões de medidas a serem discutidas e posteriormente implementadas e encaminhadas ao Poder Público. É um projeto de desenvolvimento que marca o início de um processo de crescente engajamento da comunidade no debate e na busca de soluções que respeitem o meio ambiente e que sejam justas nos aspectos socioeconômicos.
O CREA-PR acrescentou ao documento as propostas da Agenda 21, como instrumento de reflexão crítica às decisões para o litoral. A Agenda 21 é uma ampla proposta de desenvolvimento sustentável para o Brasil, em todas as áreas.
A Carta do Litoral busca estimular tanto uma integração maior entre a comunidade e as autoridades locais, como uma maior cobrança do Poder Público no que se refere á conservação e manutenção das praias paranaenses, inclusive com direcionamento de vertas estaduais e federais. O dormente demonstra a preocupação em exigir amplos estudos científicos antes de qualquer execução de obras para a solução dos problemas causados pelas ressacas.
Entre outras medidas, a Carta do Litoral sugere a implantação de um Plano Diretor e um Plano de Gestão integrados para as sete cidades do litoral, assim como uma integração entre planejamento e execução de obras de saneamento, drenagem e controle de erosões. Sugere ainda a cobrança de reuniões periódicas do Conselho do Litoral (com ampla divulgação), o acompanhamento do desempenho do Legislativo e Executivo, a criação de um sistema regional de unidade de conservação e de uma Câmara Técnica de Fiscalização das Questões do Litoral, além da criação do Instituto de Ciências Litorâneas do Paraná (sede no Parque do Rio da Onça), e que o CREA viabilize seminários para discutir o complexo portuário.
Segundo o físico Florêncio de Oliveira Filho, vice-presidente da Asflar já foram iniciadas as primeiras reuniões pós-Seminário e o se pretende agora é traçar um Plano de Ação para por em prática o que foi documentado.
Engorda de Matinhos concluída
Em outubro de 2022 a obra foi finalizada com investimento de R$ 314,9 milhões

O Governo do Estado finalizou, em outubro de 2022, a obra do engordamento da faixa de areia em Matinhos, no Litoral do Paraná. A praia foi alargada em até 100 metros em uma extensão de 6,3 quilômetros (do Canal da Avenida Paraná até o Balneário Flórida). Esta é uma das etapas do Projeto de Recuperação da Orla de Matinhos, com investimento total de R$ 314,9 milhões.
Ao todo, foram depositados 3 milhões de metros cúbicos de areia, retirados do fundo do mar pela draga Galileo Galilei. O volume é equivalente a 220 mil caminhões.
Para o serviço de engorda foi utilizada uma tecnologia complexa de dragagem, com uma embarcação com autotransportadora de sucção e arrasto. Este tipo de equipamento possui cisterna e propulsão própria, o que permite sua navegação até a chamada jazida de empréstimo, onde ela draga a areia, deposita em sua cisterna e, em seguida, manda o material pela tubulação, que está submersa e permanece em posição dinâmica para recalcar a areia até a praia, onde os tratores fazem o espalhamento na parte seca.
Acomodando 32 pessoas, a draga tem capacidade de 18 mil metros cúbicos em sua cisterna, e pesa em torno de 31,2 mil toneladas. Seu comprimento é de 166 metros, com potência de bomba de 3,4 mil KW ao arrastar e 14 mil KW ao descarregar. Na parte submersa, o próprio movimento das ondas se encarrega de fazer o espalhamento da areia.
Nos balneários, foram recuperados 4,5 quilômetros de faixa de areia. Já na praia de Caiobá, entre o Canal da Avenida Paraná e o Pico de Matinhos, a praia ficou mais larga em 1,8 quilômetro e já foi liberada para uso público. A areia nos balneários será liberada para a população após sua estabilização.
O Projeto de Recuperação da Orla de Matinhos também inclui obras de macro e microdrenagem para minimizar os impactos causados pelos efeitos de ressacas, maré alta e enchentes, que há décadas atingem bairros da cidade. Na orla da praia serão construídas dois guias-correntes (Canal da Avenida Paraná e Canal do Rio Matinhos), dois headlands (Balneários Riviera e Flórida) e um espigão (Praia Brava, na altura do Pico de Matinhos). Também haverá paisagismo e o replantio da vegetação nativa.
(Com informações da Agência Estadual de Notícias)
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