TRABALHO VOLUNTÁRIO EM RIO BONITO DO IGUAÇU
Quando a engenharia chega, chega junto a esperança de reconstrução.
No dia 7 de novembro de 2025, Rio Bonito do Iguaçu deixou de ser apenas um município do interior paranaense para se tornar o epicentro de um dos mais graves desastres naturais já registrados na região. Em poucos minutos, um tornado de grande intensidade atravessou áreas urbanas e rurais, redesenhando a paisagem, interrompendo serviços essenciais e impondo à população um cenário de devastação difícil de assimilar. Casas foram destelhadas ou simplesmente desapareceram, prédios públicos ficaram comprometidos, lavouras foram destruídas e o cotidiano de centenas de famílias foi abruptamente suspenso. Sete vidas foram perdidas.
O impacto material foi profundo, mas o impacto humano foi ainda maior. O que se viu nas horas seguintes ao evento foi uma cidade mergulhada no silêncio quebrado por sirenes, pedidos de ajuda e o som de máquinas tentando abrir caminho entre escombros. Sem energia elétrica, sem água, sem comunicação e com vias bloqueadas, Rio Bonito do Iguaçu precisava, antes de qualquer reconstrução física, de respostas técnicas rápidas, confiáveis e humanas.
Foi nesse contexto extremo que a engenharia voluntária se transformou em um dos pilares centrais da reação do município. Mais do que cálculos e laudos, ela levou método, segurança e a primeira sensação concreta de que seria possível recomeçar.
Da notícia ao campo: a mobilização imediata
Ao tomar conhecimento do tornado, a reação do presidente do CREA-PR, engenheiro Clodomir Ascari, foi imediata. “Quando soube do ocorrido, fui atrás para entender a extensão dos danos e, na mesma hora, comecei a entrar em contato com meus assessores e com profissionais que já haviam atuado conosco voluntariamente em situações semelhantes, como no Rio Grande do Sul”, relata.
A articulação não levou dias, mas horas. Já no dia seguinte ao desastre, mais de 300 engenheiros haviam se colocado à disposição para atuar como voluntários. “No sábado de manhã, a mobilização já estava em curso. No domingo, tínhamos equipes em campo”, afirma Ascari.
No dia seguinte ao tornado, o presidente do CREA-PR esteve pessoalmente em Rio Bonito do Iguaçu, dialogando com lideranças locais e com o Governo do Estado. A articulação envolveu a Defesa Civil estadual e municipal, secretarias estratégicas e representantes políticos, garantindo respaldo institucional e rapidez na tomada de decisões. “Era fundamental que a atuação técnica estivesse integrada ao poder público, para que os laudos tivessem validade imediata e pudessem ser usados na liberação de recursos”, explica Ascari.
Coordenação técnica: organização como condição para a agilidade
Um dos fatores decisivos para o êxito da operação foi a constituição de um grupo técnico de trabalho responsável por organizar, padronizar e orientar a atuação dos voluntários. A iniciativa garantiu unidade de procedimentos e segurança técnica às ações desenvolvidas no município. Profissionais dos Creas do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul integraram essa força-tarefa, coordenada pelo Sistema Confea/Crea, com foco na vistoria de edificações atingidas pelo desastre.
Nesse contexto, a participação da equipe de voluntários gaúchos enviada ao Paraná pela presidente do Crea/RS, engenheira ambiental Nanci Walter, teve papel estratégico. Os profissionais atuaram diretamente na realização das vistorias e na emissão de laudos técnicos das estruturas danificadas. De forma integrada, o Comitê de Gestão de Crise do Crea-SC prestou apoio direto às Defesas Civis municipal e estadual, ampliando a capacidade de resposta emergencial e fortalecendo a atuação interinstitucional.


Para garantir eficiência a essa mobilização interestadual, a coordenação das equipes foi estruturada em dois níveis. A coordenação estadual ficou a cargo do engenheiro mecânico Edson Haluch, assessor do CREA-PR e presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia do Paraná (IBAPE), enquanto a coordenação local foi assumida pela engenheira civil Regina de Toni, profissional com experiência recente em operações semelhantes no Rio Grande do Sul.
Segundo Ascari, coube ao grupo técnico organizar as frentes de trabalho, realizar as vistorias e emitir os laudos individuais de cada imóvel. “A organização foi fundamental para dar agilidade e segurança ao processo”, resume. Essa estrutura permitiu que as atividades avançassem mesmo diante do grande volume de demandas e do cenário de instabilidade.
Regina de Toni explica que as equipes foram formadas de acordo com a área de formação e especialidade de cada profissional, o que assegurou maior precisão nas análises. “Cada engenheiro foi direcionado para aquilo que dominava tecnicamente. Isso garantiu avaliações criteriosas, mesmo sob forte pressão de tempo”, afirma. Ela destaca ainda que a logística foi um dos principais desafios, já que o município não dispunha de condições para receber um grande número de profissionais externos. “Priorizamos quem pudesse ir e voltar no mesmo dia, sem excluir aqueles que vinham de mais longe e conseguiam se alojar”, relata.
Além das dificuldades logísticas, as condições encontradas no local impuseram obstáculos que iam além do aspecto técnico. Não havia prédios públicos em condições de uso e faltavam serviços básicos como energia elétrica, água e internet. Diante desse cenário, os engenheiros improvisaram um quartel-general em uma escola localizada na divisa entre a área urbana e rural. A partir desse ponto, as equipes partiam diariamente para as vistorias, contando com o apoio da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e de servidores municipais, muitos deles também diretamente afetados pelo tornado.
Nesse ambiente de emergência, as ações foram organizadas por prioridades. “O primeiro passo foi vistoriar equipamentos públicos essenciais, como postos de saúde, escolas, prefeitura e câmara municipal”, explica Edson Haluch. “Era fundamental garantir que os serviços básicos pudessem ser retomados com segurança.” Paralelamente, residências e estabelecimentos comerciais privados passaram a ser avaliados de forma sistemática, ampliando gradualmente o alcance da operação.
Como resultado desse trabalho, a atuação conjunta dos profissionais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul foi decisiva para acelerar o diagnóstico dos danos e viabilizar o início da reconstrução, especialmente das moradias de famílias em situação de vulnerabilidade social. A experiência reafirmou o espírito de solidariedade, cooperação e reciprocidade entre os Creas regionais — uma prática já demonstrada pelo Paraná em situações anteriores e fortalecida nesta operação.
Vistorias em tempo recorde: quando a urgência encontra a técnica
Em condições normais, a vistoria técnica de milhares de imóveis levaria meses. Em Rio Bonito do Iguaçu, o trabalho foi concluído em tempo excepcional. Em cerca de cinco dias, todas as construções da área urbana foram vistoriadas e milhares de laudos estavam concluídos.
Ao todo, aproximadamente 2.000 a 2.500 imóveis urbanos foram avaliados, além de mais de 370 propriedades rurais, com a emissão de cerca de 1.000 laudos apenas na área rural. “Em dois dias e meio, chegamos a produzir cerca de três mil laudos”, relata Regina de Toni. “É algo que, em prazos convencionais, demandaria semanas ou meses.”
Esse desempenho foi possível graças a uma estratégia integrada: enquanto equipes atuavam em campo, outras, espalhadas pelo Paraná, trabalhavam simultaneamente na elaboração dos laudos a partir das informações coletadas. Uma plataforma criada no site do CREA-PR permitiu a adesão de mais de 300 profissionais voluntários, ampliando exponencialmente a capacidade de resposta.

Os laudos técnicos emitidos pela força-tarefa cumpriram papel central em diferentes frentes. Inicialmente, serviram para alertar moradores sobre riscos iminentes, interditando imóveis quando necessário e evitando novos acidentes. “Naquele momento, muitas pessoas não sabiam nem se podiam entrar em casa”, explica Regina. “O laudo trazia uma resposta objetiva.”
Em seguida, os documentos tornaram-se a base técnica para a liberação de recursos públicos. A partir deles, a Defesa Civil estadual estruturou uma escala de apoio financeiro, com repasses que variaram de R$ 20 mil a R$ 50 mil, conforme o grau de comprometimento do imóvel. Quase 600 famílias receberam cartões para reconstrução, além de 1.812 famílias atendidas com auxílio mensal temporário.
Segundo o secretário estadual Guto Silva, o Estado já destinou R$ 21 milhões em ações emergenciais e estruturais, além de um programa habitacional que prevê a construção de 320 novas casas, utilizando sistema construtivo de rápida execução. “Sem os laudos técnicos, não haveria como liberar recursos com segurança e agilidade”, destaca.
Quando o técnico encontra o humano
Apesar do foco técnico, o aspecto humano esteve presente em todos os momentos. “A força da natureza é impressionante. Algumas famílias perderam tudo”, relata Clodomir Ascari. “Mas isso nos deu ainda mais força para cumprir nosso papel.”
Edson Haluch lembra de situações que extrapolavam qualquer manual técnico. “As pessoas nos viam como os primeiros a chegar depois da catástrofe. Muitas não tinham água, comida ou qualquer perspectiva.” Em um dos episódios mais marcantes, um morador pediu ajuda para conseguir alimento para a família. “Quando falamos em cesta básica, ele nos disse que não adiantava, porque não tinha panela. Precisávamos de comida pronta. Isso nos marcou profundamente.”
Para Regina de Toni, a engenharia, nesses momentos, assume outra dimensão. “Ela se transforma em proteção à vida, em orientação e em esperança.”
O olhar do território: a contribuição da geografia
A atuação do geógrafo Sebastião Celso Ferreira da Silva trouxe uma leitura essencial para compreender não apenas o que aconteceu, mas como evitar novos riscos. “O tornado foi um evento extremo, mas não totalmente fora da realidade do Sul do Brasil”, explica. Segundo ele, a combinação entre relevo suavemente ondulado, áreas abertas e o encontro de massas de ar quente e frio criou condições favoráveis à intensidade do fenômeno.
Sebastião esteve na área rural, onde a complexidade era ainda maior. A partir de dados georreferenciados, mapas e análises territoriais, foi possível delimitar a área de passagem do tornado e direcionar as equipes. “O conhecimento geográfico foi fundamental para dar eficiência e segurança ao trabalho”, afirma.
Além dos danos imediatos, o geógrafo alerta para riscos secundários: erosão do solo, assoreamento de cursos d’água, problemas de drenagem e impactos ambientais que exigem monitoramento contínuo. “A forma como o território é reconstruído agora vai definir a resiliência do município no futuro.”
A voz de quem viveu o desastre
Para os moradores, a chegada dos profissionais representou mais do que uma vistoria. Susi Mara Ribeiro Batista estava na igreja com mais de 200 pessoas no momento do tornado. “Foi uma cena de terror. Quando saímos, parecia uma guerra”, relembra. Ao receber a visita dos engenheiros, veio o alívio. “Eles chegaram com respostas. Isso trouxe tranquilidade.”
Elidiane Grubler, outra moradora, reforça a importância da orientação técnica. “Naquele momento, não sabíamos dos riscos que estávamos correndo. Ter pessoas capacitadas orientando fez toda a diferença.”
A cidade hoje: reconstrução em curso
Passadas algumas semanas, Rio Bonito do Iguaçu apresenta sinais claros de recuperação. Energia elétrica, água e comunicação foram restabelecidos. Muitas casas já estão cobertas ou em fase de reconstrução. Na área rural, o processo é mais lento e exige intervenções adicionais.
“Na última visita que fiz a Rio Bonito, no dia 04/12/2025, pude constatar que a área urbana do município está em reconstrução, com muitas unidades habitacionais já em fase de acabamento e muitas reformas já concluídas, ruas limpas, energia e comunicação restabelecidas praticamente em 100%. Já na área rural, a reconstrução daquelas unidades habitacionais onde houve perda total está um pouco mais lenta. Acredito que, pela ação conjunta dos órgãos públicos e dos voluntários, a recuperação, tanto do ponto de vista material como ambiental, está em processo, melhor até que o esperado”, relata Sebastião Ferreira.
A atuação voluntária em Rio Bonito do Iguaçu deixa um legado que vai além da reconstrução física. “Quando dizemos que, junto com a engenharia, chega a esperança de reconstrução, estamos falando de um legado humano e técnico”, sintetiza Clodomir Ascari.
“Hoje, diante do trabalho realizado pelos engenheiros do CREA, só temos que agradecer por toda a ajuda que chegou até nós. Desde os primeiros momentos, esse apoio foi fundamental e continua sendo decisivo, especialmente na elaboração dos laudos que garantem às famílias o acesso ao Cartão Reconstrução. Posso falar com um pouco mais de alívio, porque vemos que as coisas estão se encaminhando: os projetos estão saindo do papel, as obras públicas avançando e as moradias chegando ao nosso povo. Vivemos momentos muito difíceis, mas tenho certeza de que, com garra e luta, vamos vencer”, declara o prefeito de Rio Bonito do Iguaçu, Sezar Bovino.
Para o Paraná, fica um modelo replicável de resposta técnica solidária. Para o município, estabelece-se a base de uma reconstrução mais segura e resiliente. Quando a engenharia chega organizada, ela não leva apenas laudos: leva a possibilidade concreta de recomeçar.
ENTENDA O TORNADO QUE ATINGIU RIO BONITO DO IGUAÇU
- O tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu, na tarde de 7 de novembro, foi resultado de um
ambiente atmosférico extremamente instável, associado à formação de um ciclone extratropical no
Sul do continente. - Esse sistema de baixa pressão se desenvolveu entre áreas do Paraguai, do norte da Argentina e do sul do Brasil, intensificando a circulação dos ventos e favorecendo a atuação de frentes frias ativas, com chuva intensa e rajadas fortes.
- Com o avanço do ciclone, formou-se uma linha de temporais severos que se deslocou do Rio Grande do Sul em direção a Santa Catarina e ao Paraná.
- Durante esse deslocamento, a atmosfera apresentou condições ideais para fenômenos extremos:
- calor e umidade elevados próximos à superfície;
- ar mais frio em níveis mais altos da atmosfera;
- forte cisalhamento do vento, caracterizado pela mudança de velocidade e direção dos ventos com a altitude.
- Nesse cenário, uma das tempestades evoluiu para uma supercélula, tipo de nuvem altamente organizada e duradoura, marcada por uma corrente ascendente de ar em rotação, conhecida como mesociclone.
- A intensificação dessa rotação permitiu que o movimento se estendesse até a superfície, dando origem ao tornado que atingiu diretamente o município.
- Embora tenha atuado por poucos minutos e em uma faixa relativamente estreita, o fenômeno apresentou elevado poder destrutivo.
- Segundo análises preliminares do Simepar, o tornado foi classificado como F4 na Escala Fujita.
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