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A FORMAÇÃO EM ENGENHARIA DIANTE DOS NOVOS DESAFIOS DA LIDERANÇA

Publicado em 5 de fevereiro de 2026

Durante décadas, a graduação em Engenharia no Brasil foi sinônimo de rigor técnico, domínio das ciências exatas e forte foco em cálculos, projetos e execução. Esse modelo formou profissionais altamente capacitados do ponto de vista técnico, responsáveis por grandes obras, sistemas produtivos e avanços industriais que marcaram o desenvolvimento do país.

No entanto, em um cenário cada vez mais complexo, conectado e multidisciplinar, cresce um questionamento inevitável: a formação tradicional do engenheiro ainda dá conta dos desafios do século XXI?

De forma geral, os currículos clássicos das engenharias brasileiras ainda dedicam pouco espaço a disciplinas voltadas à administração, liderança, gestão de pessoas, comunicação, políticas públicas ou visão estratégica. O engenheiro é preparado para resolver problemas técnicos, mas raramente para liderar equipes diversas, gerir conflitos, dialogar com o setor público ou tomar decisões estratégicas em ambientes organizacionais complexos.

Esse descompasso torna-se evidente quando se observa a trajetória profissional de muitos engenheiros que, ao longo da carreira, acabam ocupando cargos de liderança, gestão empresarial ou até mesmo funções públicas – sem terem sido formalmente preparados para isso durante a graduação.

Segundo o conselheiro do Crea-PR, engenheiro eletricista José Quirilos Assis Neto, essa lacuna acompanha a formação em Engenharia há décadas. Ele destaca que, embora o foco técnico seja indispensável, a carreira do engenheiro nem sempre se restringe à execução ou ao projeto. “O engenheiro nem sempre constrói sua carreira como um calculista, projetista ou executor de obras e sistemas. Muitos profissionais da Engenharia, Agronomia e Geociências trabalham no mercado financeiro, vendas técnicas, na gestão de empresas e pessoas, na política, na docência entre outras áreas. E principalmente para essas áreas, as relações humanas, a visão social, a ética, entre outras disciplinas mais presentes nas ciências humanas, são fundamentais”, afirma.

Para ele, parte dessas disciplinas até consta nas ementas dos cursos, mas ainda é tratada como secundária pelos próprios estudantes. “Ou seja, além da revisão da ementa dos cursos de Engenharia e correlatas pelas escolas, complementando os conhecimentos das áreas humanas e sociais, deve-se investir na sensibilização dos graduandos para que deem valor a essas áreas do conhecimento”, completa.

Liderar pessoas e tomar decisões: um aprendizado que ficou de fora

A percepção de que o engenheiro sai da universidade preparado para calcular e executar, mas pouco preparado para liderar pessoas e tomar decisões estratégicas, é recorrente no mercado de trabalho. Para José Assis, liderar vai muito além do domínio técnico:

“Liderar pessoas exige muito mais do que conhecimento técnico na área. O líder de uma equipe deve distribuir as tarefas para os integrantes de acordo com o perfil e habilidades dos integrantes. Escolher entre dar autonomia ou supervisionar mais de perto cada membro da equipe também é tarefa do líder e depende da maturidade do liderado”, explica.

Ele acrescenta que decisões estratégicas envolvem adaptar produtos, serviços e processos à visão e à missão das organizações.“Muitos engenheiros saem da universidade com capacidade de agir dessa forma, mas normalmente o fazem por sua personalidade, um dom e não porque foi ensinado na graduação”, observa.

Essa ausência de disciplinas ligadas à administração, liderança e gestão impacta diretamente a atuação profissional. Segundo o conselheiro, “a lacuna de conhecimento do engenheiro nessas áreas limita a atuação do profissional à área técnica. E assim, exige que as funções não dominadas por ele sejam executadas por outros profissionais. Isso, automaticamente, reduz a autonomia do engenheiro e, para a empresa, aumenta o custo da contratação”.

Apesar disso, José Assis defende que liderança não é apenas um talento inato, mas uma competência que pode e deve ser desenvolvida. “Existem os líderes naturais e outros que aprendem com facilidade. Porém, técnicas de relacionamento interpessoal, oratória, comunicação eficiente, entre outras, agregadas à sensibilidade social e aos conhecimentos de engenharia já ensinados, podem – e devem – desenvolver mais líderes engenheiros que tanto precisamos”.

Essa percepção também é defendida pela vice-presidente do Crea-PR e diretora do Senge-PR, a engenheira civil Margolaine Giacchini. Segundo ela, por muitos anos as competências relacionadas à liderança e à tomada de decisão foram construídas de forma individual ao longo da trajetória profissional, porém esse modelo já não atende às demandas atuais. “Atualmente, face à dinâmica do mercado de trabalho, é necessário que tais habilidades sejam desenvolvidas na graduação”, pontua.

O mercado, o exemplo internacional e as iniciativas que apontam novos caminhos

No Brasil e no mundo, o mercado de trabalho vem sinalizando há algum tempo que apenas a excelência técnica não basta. Empresas buscam profissionais capazes de unir conhecimento técnico a habilidades como comunicação, liderança, pensamento estratégico, gestão de equipes e visão de negócio. A Indústria 4.0, a transformação digital, as exigências de compliance, sustentabilidade e governança ampliaram o papel do engenheiro, que passou a atuar de forma cada vez mais transversal nas organizações.

Esse movimento também pode ser observado em experiências internacionais. Um exemplo frequentemente citado é o da China, onde grande parte da elite governante possui formação em Engenharia. Nesse contexto, o acesso a posições de liderança política está fortemente associado à capacidade de entregar resultados concretos, especialmente nas áreas de infraestrutura, indústria e tecnologia.

Para José Assis, o Brasil pode aprender com esse modelo, especialmente no que diz respeito à valorização da Engenharia como vetor de desenvolvimento. “Para desenvolver o nosso país, construir toda infraestrutura necessária, nós precisamos de mais engenheiros. Em países em desenvolvimento, como a China e o Brasil, faz sentido ter engenheiros exercendo funções de destaque e poder em maior número”, avalia. Ele ressalta, no entanto, que para chegar a essas posições é indispensável desenvolver habilidades sociais e humanas. “Hoje, só o engenheiro que tem essas habilidades de maneira natural é que chega a essas posições”.

No Brasil, diante das limitações da formação tradicional, surgem iniciativas que buscam complementar o desenvolvimento profissional dos engenheiros. Uma delas é a atuação do Programa CreaJr-PR, que oferece aos estudantes oportunidades de cursos, eventos e experiências voltadas à liderança, gestão, empreendedorismo e protagonismo profissional.

Outro destaque é o portal Conecta Crea-PR, que reúne cursos e eventos de parceiros do Conselho, além de acesso à Plataforma Pró-Crea, com cursos on-line gratuitos. A iniciativa permite que profissionais ampliem suas competências em áreas como liderança funcional, gestão de equipes e conflitos, métodos ágeis, SCRUM, compliance, ESG, políticas públicas e gestão estratégica, de forma acessível e flexível.

A Mútua, Caixa de Assistência dos Profissionais do Crea, também lançou um programa de mentoria voltado ao desenvolvimento técnico, humano e estratégico, com foco em consultoria, empreendedorismo, posicionamento profissional, marketing, networking e construção de carreira.

Nesse contexto, o Senge-PR criou o programa de mentoria Conectando Gerações, voltado tanto a acadêmicos quanto a profissionais já formados. A iniciativa está alinhada à missão institucional do sindicato, conforme explica o conselheiro do Crea-PR, José Assis. Segundo ele, o programa nasce do compromisso histórico do Senge com a representação da categoria e com o fortalecimento da Engenharia como instrumento de desenvolvimento social. “A razão de existir do Senge, conforme seu Estatuto Social, é defender os interesses da categoria, auxiliar a sociedade nas questões de Engenharia e contribuir para o desenvolvimento do país e da democracia”, afirma. A partir dessa diretriz, a mentoria foi pensada como um espaço de troca intergeracional que amplia a visão dos novos profissionais sobre a profissão. “Ao aproximar engenheiros experientes de quem está ingressando no mercado, buscamos estimular uma atuação mais consciente, com responsabilidade social e compreensão do impacto da Engenharia na vida das pessoas”, destaca.

Já a vice-presidente do Crea-PR e diretora do Senge-PR, Margolaine Giacchini, enfatiza o caráter formativo do Conectando Gerações frente às transformações do mundo do trabalho. Para ela, o programa surge da constatação de que a formação técnica, isoladamente, não é suficiente para preparar o engenheiro para os desafios atuais. “A mentoria cumpre um papel complementar à graduação, ao desenvolver competências que vão além do conhecimento técnico”, explica. Segundo Margolaine, o foco está no fortalecimento de habilidades essenciais para uma atuação profissional mais completa. 

“O principal objetivo do programa é promover o desenvolvimento profissional e pessoal, valorizando liderança, comunicação, ética, inovação e senso crítico, contribuindo para a formação de engenheiros mais preparados e conscientes do seu papel na sociedade”, conclui Margolaine. 

Na prática, o programa foi estruturado para promover uma relação próxima e contínua entre mentores e mentorandos. Margolaine detalha que o processo ocorre por meio de encontros regulares, realizados de forma presencial ou on-line, e organizados a partir de um método consolidado. “A mentoria está organizada em sete encontros, sendo que cada encontro tem um propósito específico ligado à construção do Plano de Metas, que é a ferramenta norteadora de todo o processo”, afirma. Segundo ela, o modelo permite acompanhar a evolução do mentorando, registrar avanços e avaliar continuamente os resultados, garantindo efetividade ao programa.

Um dos diferenciais do Conectando Gerações é a sua estrutura conceitual baseada em cinco eixos que dialogam diretamente com as lacunas da formação tradicional em engenharia. Esses eixos tratam de temas como redução das desigualdades sociais, ética, sustentabilidade ambiental, participação cidadã e uso da inovação com sentido público. Para Margolaine, essa abordagem é fundamental porque “os cursos de engenharia são muito focados na parte técnica, e todas essas questões acabam se tornando lacunas na formação da maioria dos novos profissionais. Esse é um esforço concentrado para suprir essas deficiências ou, pelo menos, conscientizá-los dessa necessidade”.

Ela destaca que esses pilares não se limitam ao empreendedorismo, mas também preparam engenheiros para cargos de liderança em empresas e no setor público. “O objetivo do programa é colaborar com a formação de um profissional mais completo, com excelência técnica aliada à visão social ou coletiva do seu entorno. Com essas características, ele amplia a sua área de atuação, podendo empreender melhor, tanto quanto atuar em empresas privadas ou no setor público”, ressalta.

Margolaine também chama atenção para o impacto prático desse tipo de formação. Para ela, a atuação técnica do engenheiro nunca está dissociada do contexto social em que se insere. “Uma obra ou equipamento instalado em uma comunidade cria uma mudança no local. Essa mudança pode contribuir para a redução das desigualdades locais, se o projeto foi pensado dessa forma, ou pode criar barreiras, caso não atenda às necessidades de todos os usuários, em especial dos mais vulneráveis”, afirma.

Outro ponto central do programa é o estímulo ao autoconhecimento como base da liderança. Segundo a diretora do Senge-PR, “o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal são fundamentais para o profissional desenvolver a autoconfiança necessária para atuação na liderança de qualquer atividade”. Essa dimensão, muitas vezes ausente na graduação, é tratada de forma transversal ao longo das mentorias.

Ao investir na aproximação entre gerações, o Senge-PR reforça seu papel como espaço de formação continuada, debate e construção coletiva da engenharia. Para os especialistas, essas iniciativas não substituem a formação acadêmica, mas apontam caminhos importantes para suprir lacunas históricas.

O debate está posto: é possível continuar formando engenheiros apenas para resolver problemas técnicos quando o mundo exige soluções sistêmicas, humanas e estratégicas? A resposta parece apontar para uma formação mais ampla, que preserve a excelência técnica, mas incorpore competências de liderança, gestão e visão social. Se as instituições de ensino acompanharão essa transformação ou se caberá ao próprio profissional buscar essas competências fora da graduação, é uma questão em aberto. Mas uma coisa é certa: essa construção já começou.

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