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ENERGIAS ALTERNATIVAS NO MEIO RURAL E O PAPEL DA ENGENHARIA NA INOVAÇÃO E NA SUSTENTABILIDADE DO CAMPO BRASILEIRO

Publicado em 5 de fevereiro de 2026

Da energia solar ao biogás, o campo brasileiro avança na transição energética com soluções técnicas que aliam eficiência produtiva, segurança e responsabilidade ambiental.

A transição energética deixou de ser um debate restrito aos grandes centros urbanos, às usinas hidrelétricas ou aos parques industriais. No Brasil, ela avança cada vez mais de forma estratégica pelo meio rural. Propriedades agrícolas e pecuárias, historicamente dependentes de redes elétricas longas, instáveis e onerosas, passaram a incorporar sistemas próprios de geração de energia a partir de fontes renováveis, como a solar fotovoltaica, o biogás e, em menor escala, a eólica.

Mais do que uma escolha ambiental, a adoção dessas tecnologias tornou-se uma decisão econômica, produtiva e, em muitos casos, de sobrevivência da atividade rural. Oscilações no fornecimento de energia, quedas frequentes, elevação das tarifas e exigências crescentes por sustentabilidade no mercado interno e externo impulsionaram produtores a buscar autonomia energética. Nesse novo cenário, o campo deixa de ser apenas consumidor e passa a assumir o papel de produtor de energia limpa, reposicionando-se estrategicamente dentro da agenda climática e do desenvolvimento sustentável.

A engenharia e a agronomia assumem papel central nesse processo. São essas áreas que garantem a viabilidade técnica, a segurança operacional e a eficiência dos sistemas, além de promoverem a integração entre produção agropecuária, energia e preservação ambiental. A presença de profissionais habilitados torna-se determinante para transformar oportunidades tecnológicas em soluções duráveis e economicamente viáveis.

Entre as fontes renováveis disponíveis, a energia solar fotovoltaica consolidou-se como a principal porta de entrada da geração distribuída no meio rural brasileiro. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) indicam que, dos mais de 43 gigawatts de geração distribuída instalados no país, cerca de 99% correspondem à fonte solar. Esse crescimento é resultado de uma combinação de fatores: abundância de radiação solar, queda expressiva nos custos dos equipamentos, ampliação da mão de obra especializada e acesso a linhas de crédito específicas voltadas ao produtor rural.

Segundo o engenheiro eletricista, João Pletsch, responsável técnico da cooperativa de eletrificação de Mal. Cdo. Rondon-CERCAR, a adoção da energia fotovoltaica no campo está diretamente relacionada ao perfil de consumo da agropecuária. “Diversas atividades utilizam grande quantidade de energia elétrica em seus processos produtivos. Para reduzir custos e aumentar a previsibilidade, a alternativa mais viável foi a instalação de sistemas de geração fotovoltaica”, afirma.

Atividades como avicultura, piscicultura e suinocultura figuram entre as mais beneficiadas. Nessas cadeias produtivas, a energia elétrica é essencial para climatização, ventilação, bombeamento de água, automação e refrigeração, fazendo com que o custo energético represente uma parcela significativa do custo operacional. A previsibilidade no fornecimento e a redução da dependência da rede convencional impactam diretamente a competitividade do produtor.

Pletsch destaca ainda que o Brasil reúne condições naturais privilegiadas para esse tipo de geração. “Somos um país tropical, com dias longos, alta intensidade solar, baixa nebulosidade em grande parte do território e ampla disponibilidade de áreas para implantação dos sistemas”, explica. Telhados de galpões, silos, estábulos e até áreas improdutivas passaram a ser aproveitados para a instalação dos painéis, sem interferir nas atividades agropecuárias.

Apesar da aparente simplicidade, a implantação de sistemas fotovoltaicos no meio rural exige avaliação técnica criteriosa. Antes de investir, o produtor precisa analisar seu consumo total, a sazonalidade da atividade, a tarifa de energia, a capacidade da rede local e a viabilidade financeira do projeto. “A instalação normalmente não interfere na atividade produtiva, pois os painéis são colocados sobre telhados ou em estruturas no solo, e a operação do sistema é automática”, observa Pletsch.

No entanto, o engenheiro alerta para desafios técnicos crescentes, como a elevação da tensão nas redes rurais, que pode provocar queima de equipamentos e desligamentos da geração. Esses problemas reforçam a importância de projetos bem dimensionados, estudos de impacto na rede e acompanhamento técnico permanente. A expansão acelerada da energia solar no campo também impulsionou a criação de centenas de empresas especializadas em projeto, instalação e manutenção, fortalecendo a engenharia elétrica e gerando empregos qualificados.

Mudanças regulatórias introduzidas a partir de 2023, como a cobrança pelo uso da rede de distribuição — conhecida como fio B —, provocaram retração no ritmo de novas instalações, evidenciando a influência direta das políticas públicas sobre o setor. Ainda assim, a tendência de médio e longo prazo aponta para a continuidade da geração distribuída como elemento estruturante da matriz energética rural.

Biogás: energia, gestão ambiental e economia integrada

Se a energia solar representa hoje a principal porta de entrada da geração distribuída no campo, o biogás desponta como uma solução ainda mais completa em regiões com forte presença da pecuária intensiva. Ao transformar resíduos orgânicos em energia, o biogás alia geração elétrica, tratamento ambiental, mitigação de gases de efeito estufa e produção de biofertilizantes, fechando ciclos produtivos antes marcados por passivos ambientais.

O agropecuarista Leandro Ricardo Vivian relata que, em sua propriedade, a produção de biogás ocorre por meio de uma lagoa anaeróbica coberta, que recebe diariamente dejetos de suínos, água de lavagem, carcaças de animais e resíduos externos, como soro de leite. “Todos esses resíduos passam por fermentação anaeróbica e produzem um biogás com concentração entre 48% e 60% de metano”, explica.

Após a geração, o gás passa por processos simples de purificação, como resfriamento para retirada de umidade e passagem por carvão ativado para redução do ácido sulfídrico, antes de ser utilizado na queima em motores geradores de energia elétrica. O sistema exige rotina, monitoramento constante e conhecimento técnico, mas oferece retorno significativo.

A dimensão da operação impressiona. A granja abriga cerca de cinco mil matrizes, gerando aproximadamente 200 mil litros diários de dejetos líquidos, além de 300 a 400 quilos de resíduos sólidos e cerca de cinco mil litros de soro de leite adicionados diariamente ao biodigestor. O sistema possui volume aproximado de quatro milhões de litros e tempo médio de retenção entre 20 e 25 dias.

Os resultados financeiros são expressivos. “Hoje conseguimos gerar de 100 a 110 mil quilowatts-hora por mês com o biogás, o que representa cerca de 60% do consumo total da granja”, relata Vivian. A conta de energia, que variava entre R$ 110 mil e R$ 120 mil mensais, caiu para valores entre R$ 35 mil e R$ 40 mil.

Além do biogás, a propriedade conta com sistema fotovoltaico de apoio, responsável por aproximadamente 13 mil quilowatts-hora mensais, instalado sobre estruturas que também funcionam como cobertura de estacionamento. “A energia virou praticamente uma nova atividade dentro da suinocultura”, afirma o produtor. “Temos pessoas específicas para o manejo do biodigestor e para operar os geradores. Se não houver alimentação diária adequada, o sistema perde eficiência.”

Os ganhos vão além da economia financeira. O processo reduz significativamente o odor característico dos dejetos, melhora a qualidade do fertilizante aplicado ao solo e mitiga emissões de gases de efeito estufa. “O metano é cerca de 27 vezes mais poluente que o dióxido de carbono. Ao queimá-lo, reduzimos drasticamente o impacto ambiental”, destaca Vivian. O biofertilizante resultante sai estabilizado, menos ácido e pronto para aplicação nas lavouras, fortalecendo a integração entre produção animal e agricultura.

Essa visão é compartilhada por especialistas do setor, que defendem modelos coletivos como alternativa para viabilizar pequenos produtores. Projetos cooperativos de geração de biogás têm se consolidado como solução para diluir custos e ampliar a escala de produção. Um exemplo é a Central de Bioenergia de Toledo, que processa dejetos de aproximadamente 41 mil animais provenientes de múltiplos suinocultores, gerando energia suficiente para abastecer cerca de 1.500 residências, além de produzir biofertilizantes. A iniciativa demonstra que a cooperação, aliada ao suporte técnico e institucional, amplia o alcance das energias renováveis no meio rural.

Engenharia, segurança e o futuro da energia no campo

Diferentemente da solar e do biogás, a energia eólica enfrenta restrições técnicas mais severas no meio rural brasileiro. O engenheiro eletricista Marco Antonio Biscaia explica que a viabilidade depende fortemente do regime de ventos, da disponibilidade de áreas e do custo de implantação. “Em propriedades rurais, a energia eólica ainda é limitada, especialmente em sistemas de pequeno porte, que têm custo elevado e geração variável”, analisa.

Apesar disso, propostas inovadoras começam a surgir. No âmbito do Congresso Estadual de Profissionais, foi apresentada uma ideia para aproveitamento do vento gerado pelo tráfego de veículos em rodovias, por meio da instalação de pequenas turbinas em postes de iluminação. A tecnologia, em desenvolvimento em países como a Inglaterra, poderia beneficiar comunidades rurais próximas às estradas. Segundo o engenheiro Luiz Fernando Wagner Ribeiro Moraes Gomes, caminhões em alta velocidade podem gerar rajadas de vento equivalentes a forças superiores a 100 newtons por metro quadrado, evidenciando potencial técnico para geração local de energia destinada à iluminação pública, bombeamento de água e pequenas residências.

Com a expansão das energias alternativas, cresce também a responsabilidade sobre a segurança das instalações elétricas no meio rural. Ambientes de criação animal apresentam riscos elevados devido à umidade, poeira, presença de animais e uso contínuo de equipamentos de alta potência. Biscaia alerta que falhas em instalações elétricas podem causar choques, incêndios e até mortes de animais. “Sistemas de ventilação e climatização são vitais. Qualquer interrupção pode comprometer o bem-estar e a produtividade”, afirma.

A responsabilidade técnica é compartilhada entre produtor, projetista e empresa instaladora. Normas como a NR-10, NR-31 e a NBR 5410 estabelecem critérios rigorosos para garantir segurança, exigindo projetos adequados, dispositivos de proteção, aterramento eficiente e manutenção periódica. A atuação da engenharia é essencial para assegurar que a busca por eficiência energética não comprometa a segurança das pessoas, dos animais e das instalações.

A integração entre engenharia elétrica e agronomia revela-se decisiva para o sucesso dos projetos. Enquanto a agronomia define as demandas produtivas e o manejo adequado, a engenharia assegura eficiência energética, confiabilidade e segurança dos sistemas. Essa atuação conjunta permite soluções como irrigação automatizada, climatização inteligente, uso racional da energia e integração de fontes renováveis.

A expansão das energias alternativas no meio rural transformou o campo em um polo de inovação, geração de empregos e fortalecimento da engenharia nacional. Mais do que consumidores, produtores rurais tornaram-se agentes ativos da transição energética. Apesar dos desafios regulatórios, técnicos e financeiros, a integração de fontes como solar, biogás e sistemas híbridos aponta para um futuro em que o campo brasileiro será não apenas celeiro de alimentos, mas também produtor estratégico de energia limpa, sustentável e segura.

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