Erva-mate: a assistência técnica como peça-chave para o desenvolvimento da cultura
O conhecimento técnico proporcionado pela parceria entre pesquisa e extensão rural melhora a qualidade de vida, principalmente em comunidades rurais e na agricultura familiar

Em uma pequena propriedade de 7,6 hectares em Ivaí (PR), o agricultor Marcelo Grochoski e seu filho, o engenheiro agrônomo Rafael Pezzini Grochoski, cultivam erva-mate há 25 anos. O erval refletia a realidade de muitos: a técnica, o manejo do solo e do plantio pouco mudaram ao longo dos anos.
No entanto, tudo se transformou quando, em 2020, Rafael, ainda como estudante de Agronomia, fez estágio na Embrapa Florestas e, junto com o conhecimento do engenheiro agrônomo Ives Goulart, coordenador do Sistema de Produção Erva 20, passou a aplicar na produção as boas práticas previstas. O resultado é que a produtividade saltou de 7,5 mil quilos por hectare em 2020 para 14.625 quilos por hectare em 2024. Um aumento muito significativo de 95%.
“Em 2020, realizei um trabalho de pesquisa aprofundado, que se tornou minha tese de doutorado, sobre ‘Fatores que afetam a produtividade e a adoção de tecnologias na cultura da erva-mate’. O objetivo era identificar por que os produtores não adotavam, em sua maioria, as boas práticas que já estavam compiladas no sistema de produção que visa aumentar a eficiência e a sustentabilidade do cultivo de erva-mate, o Erva 20”, afirma Goulart.
Lançado pela Embrapa em 2019, o Erva 20 reúne técnicas que podem ser adotadas pelos produtores para melhorar o manejo dos ervais, desde o plantio até a colheita, e reúne de forma sistematizada mais de 30 anos de pesquisas.
Segundo ele, na produção ervateira, apesar de toda a informação disponível, a adoção das boas práticas não é comum. O trabalho mostrou que a maioria dos ervais está em nível tecnológico baixo, com produtividade média inferior a 7,3 t/ha em intervalo entre colheitas maior que 24 meses. Exatamente o que acontecia na propriedade de Grochoski: baixa produtividade com baixo retorno financeiro.
A propriedade, pelos bons resultados apresentados, passou a ser exemplo de como o conhecimento técnico pode mudar a realidade no campo. “A atuação do produtor em conjunto com um profissional de assistência técnica foi essencial para melhorar o desempenho desses cultivos e atingir melhores resultados”, afirma Goulart. “Sem a atuação do profissional atendendo ao produtor, esse nível de melhoria não seria possível”, conclui.
Mudança gradativa
O engenheiro agrônomo da Embrapa cita que uma das dificuldades para se melhorar a produção é o investimento necessário. “O produtor já tem um retorno financeiro baixo e fica inviável corrigir tudo o que é necessário de uma vez só, pelo custo”, explica.

Rafael conta que a saída foi fazer ajustes gradativos. O primeiro trabalho foi a análise do solo. “Verificamos como estavam os níveis nutricionais e começamos a aplicação de calcário para elevar o cálcio e o magnésio. Entre as primeiras ações, também cessamos o uso de herbicidas e inseticidas e apostamos no controle biológico de pragas e na adubação. Deixamos o solo mais fértil e, na época do inverno, fizemos a cobertura verde. Já no verão, deixamos a vegetação espontânea. Assim, melhoramos a estrutura do solo para aumentar nossa fertilidade e, em consequência, a produtividade”, explica.
“A cada safra, fizemos uma parte desse processo. Ajustamos também as podas de um ano para um ano e meio e eliminamos o uso de facão, além de manter 20% das folhas para diminuir o estresse na planta e ajudar na brotação para a nova safra”, contextualiza Rafael.
E o resultado mais visível é a melhoria da condição financeira da família. “O aumento de produtividade gerou mais rentabilidade e, com isso, trocamos o cultivo de soja em três hectares para ampliação da produção de erva-mate. E a ideia é aumentar cada vez mais”, explica.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a erva-mate é o maior produto não madeireiro do agronegócio florestal na Região Sul do Brasil e o segundo em âmbito nacional, tendo notável importância na economia dos estados produtores.
Erva 20 inspira políticas públicas
Sistema serve de referência para municípios
O sistema, que traz recomendações detalhadas aos produtores, é utilizado nas principais regiões produtoras: Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. O conjunto de boas práticas serviu de inspiração e fomento de políticas públicas, como, por exemplo, o Ecomate, programa que já existe em Turvo desde 2018 e tem por objetivo levar conhecimento técnico aos produtores de erva-mate, aliado à educação ambiental.
Em Mallet, no Paraná, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento lançou um programa para estimular a produção local de erva-mate e que foi inspirado no Erva 20. Por lá, o programa oferece um aporte inicial de mudas de erva-mate, em parceria com o Instituto Água e Terra (IAT), além de assistência técnica aos produtores cadastrados e assessoria em projetos para obtenção de cartas de crédito voltadas para investimentos na produção.
“Nos traz satisfação saber que o Erva 20 gera negócios, riquezas e melhora a produtividade da erva-mate nas propriedades”, diz Goulart.
A Embrapa também oferece gratuitamente o Manual do Sistema Erva 20, que apresenta o passo a passo para plantar, manejar e colher e, assim, estabelecer um erval com capacidade de alcançar seu potencial produtivo, mantendo a qualidade da matéria-prima e a sustentabilidade ambiental. Também disponibiliza três aplicativos: Ferti-Matte; Manejo-Matte e Planin-Matte.
Importância dos extensionistas
Profissionais podem atuar diretamente nos fatores que afetam a produtividade e estão em falta
Na pesquisa “Fatores que afetam a produtividade e a adoção de tecnologias na cultura da erva-mate”, ficou evidente a importância dos extensionistas e demais engenharias envolvidas na cultura para disseminação das informações e assistência técnica.
“Além dos engenheiros agrônomos e florestais, também profissionais de outras modalidades das engenharias se envolvem, como os engenheiros mecânicos e de produção e até civil na construção de espaços e equipamentos”, conta Ives Goulart, da Embrapa Florestas.
E, segundo ele, boa parte dos mateicultores não conta com assistência técnica e Extensão Rural (Ater). Em seu estudo, Goulart apontou que apenas 28% dos agricultores possuem Ater e recebem em média 0,6 visitas anuais. Entre os produtores que recebem Ater, 56% contam com o serviço público e 44 % contratam Ater privada, e a média de visitas é de 2,5 por ano.
“Este resultado aponta para a escassez de extensionistas da rede de Ater pública e uma oportunidade para atuação de profissionais autônomos. Por outro lado, embora uma fração pequena de produtores tenha acesso à Ater, a maior parte (60,5%) busca informações em eventos técnicos e cursos de curta duração ofertados pelos agentes públicos”, enfatiza.
De olho nessa oportunidade Rafael Pezzini Grochoski abriu sua própria empresa, após o estágio, e presta consultoria agronômica para produtores com base em toda a experiência que adquiriu ajustando a produção de sua própria família.

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