Identificar vulnerabilidades é o primeiro passo para salvar vidas
Planejamento urbano pode conter os efeitos destrutivos das catástrofes naturais

No início de 2010, uma sucessão de catástrofes naturais, como enchentes, deslizamentos de encostas e terremotos, tomou conta dos noticiários. No Paraná, grandes ocorrências foram registradas nos meses de janeiro e fevereiro em Almirante Tamandaré, Tomazina, Sengés e na Estrada da Ribeira. Nesta, cerca de cem deslizamentos foram contabilizados apenas no primeiro mês do ano. São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, Paraty e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, também enfrentaram emergências decorrentes do excesso de chuva.

Para além de nossas fronteiras, fortes tremores de terra ocorridos no Haiti e no Chile fizeram milhares de vítimas, somadas as duas ocorrências. Os efeitos destrutivos de desastres como esses podem, no entanto, ser minimizados, ou até evitados, se as cidades estiverem preparadas para as adversidades a que estão sujeitas. Independente se as catástrofes tiverem origem na evolução natural de ciclos geológicos ou na ação humana. Profissionais da engenharia, geologia e defesa civil ouvidos para esta reportagem são unânimes em afirmar que há tecnologia e método para isso. Falta ainda, salvo algumas exceções, consolidar a cultura da prevenção e do sistemático estudo acerca dos processos naturais de cada localidade em particular.
No Brasil, o debate sobre a preparação das cidades para a ocorrência de desastres começa a despertar interesse. Em dezembro do ano passado, a Associação Brasileira de Engenheiros Civis (Abenc) realizou, em Curitiba, o 1º Seminário Brasileiro sobre Catástrofes Naturais e Antropogênicas e, simultaneamente, o 1° Seminário Brasileiro de Engenharia Civil Emergencial.

Segundo o presidente da Abenc, engenheiro civil Ney Perracini de Azevedo, o objetivo é motivar a discussão nacionalmente para que ela alcance os municípios, onde a ação pode ser mais efetiva. “O que falta, muitas vezes, é vontade política. O desastre acontece de tempos em tempos, mas a administração pública não se importa se vai acontecer na próxima gestão”, afirma Azevedo.
De acordo com o chefe da seção operacional da Coordenadoria Estadual da Defesa Civil no Paraná, 1º Tenente Eduardo Gomes Pinheiro, o fato de muitas pessoas acreditarem que a catástrofe não ocorrerá é o que mais as aproxima da vulnerabilidade que as tornará vítimas do desastre. “Vivemos num País em que as pessoas ainda acreditam que não acontecem desastres, mas não é isso o que as estatísticas têm mostrado ultimamente”, alerta. De 2004 a 2009, o Paraná teve mais de 100 mil casas danificadas e aproximadamente 1,5 mil destruídas por desastres naturais. Dos 399 municípios do Estado, 148 foram afetados, segundo dados da Defesa Civil.
Conhecimento e proteção reduzem o número de mortes
A impressão de que, nos primeiros meses de 2010, o volume de catástrofes naturais foi atípico não é falsa. De acordo com o geólogo Renato Eugênio de Lima, coordenador do Centro de Apoio Científico em Desastres da Universidade Federal do Paraná (Cenacid-UFPR), em janeiro e fevereiro as equipes do Centro realizaram sete missões de atendimento em áreas atingidas por desastres. Até então, em dez anos de atividade do Cenacid, a média vinha se mantendo em cinco missões por ano.
Na avaliação de Lima, o aumento da população do planeta e a carência de sistemas adequados de proteção civil têm contribuído para o crescimento do número de catástrofes. “Está aumentando o número de desastres, mas não o número de processos naturais perigosos. Os desastres naturais são causados 50% por um processo geológico perigoso e 50% pela ação do homem. O Alasca é uma área sísmica onde ocorrem terremotos diariamente, mas isso não é um desastre porque não tem ninguém lá”, explica o geólogo.
A saída para reduzir ao máximo o número de mortes em áreas vulneráveis, cuja densidade populacional é alta, seria investir em conhecimento e proteção, aponta o coordenador do Cenacid. “Há alternativas de ação, como construção de represas, muros de contenção, túneis, obras de drenagem, e existem centenas de formas de fazer, com materiais mais flexíveis e mais resistentes. Mas essas tecnologias vão sendo desenvolvidas com o avanço do conhecimento. No Brasil, ainda temos um longo caminho a percorrer”, observa Lima.
Deslizamentos e inundações são as principais ocorrências no Brasil
Os desastres naturais que mais matam no mundo são os terremotos, segundo dados do Cenacid-UFPR. No Brasil, os deslizamentos são os que causam mais mortes, já as inundações provocam os maiores prejuízos econômicos.
A cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, é um exemplo de que a preparação para um desastre é viável. Localizada próximo à falha geológica de San Andreas, que se estende ao longo de 1,3 mil quilômetros, Los Angeles vem sendo equipada para enfrentar o pior terremoto de sua história.
A data da tragédia não pode ser prevista, mas os estudiosos contam com a certeza de que ela ocorrerá. “Sabe-se que uma falha geológica ativa está constantemente acumulando energia e que num período de 30 a 100 anos poderá ocorrer um grande terremoto”, explica o coordenador do Cenacid, geólogo Renato Eugenio de Lima. “Se você sabe que o lobo mau vem soprar a casa, tem que construir uma que aguente”, compara o geólogo.
Em Curitiba, onde as enchentes representam o maior risco, um grupo de trabalho formado por profissionais ligados ao CREA-PR foi criado, recentemente, com o intuito de debater os parâmetros para um plano diretor de drenagem urbana, que poderá ser adotado pelos demais municípios paranaenses.
De acordo com o coordenador da Câmara Especializada em Engenharia Civil do CREA-PR, engenheiro civil Newton Rutz, o conceito de drenagem urbana utilizado por boa parte das administrações municipais no Estado precisa ser revisto. “Ainda é baseado nos conceitos higienistas do século XIX, no qual a solução clássica da drenagem procura remover da forma mais rápida e eficiente possível a água dos centros urbanos. Devemos tentar diminuir o escoamento superficial ou reutilizar a água da chuva, através da adoção de tecnologias sustentáveis para o manejo das águas pluviais na bacia”, defende Rutz.
Desastres estão mais frequentes
RS teve tragédia recente
No ano de 2024 o Brasil e o mundo ainda assistem perplexos a tragédia que assolou o estado do Rio Grande do Sul. Segundo dados divulgados pela Defesa Civil gaúcha e que constam de matéria da Agência Brasil, o número de mortos em decorrência das fortes chuvas, enchentes e enxurradas que atingem o Rio Grande do Sul desde o fim de abril é de 171. Ao todo, mais de 2,3 milhões de moradores foram afetados pelas chuvas, que atingiram o estado em 475 municípios.
E a cena se repete pelo globo. No Sul da Alemanha choveu em 24 horas mais do que o esperado para o mês e afetou com enchentes os estados de Baden-Württemberg e Baviera. Algumas comunidades declararam estado de emergência. Nos meses de abril e maio, a Índia, e outras regiões da Ásia, enfrentaram uma onda de calor com temperaturas que chegaram a 47 °C.





Confira os dados dos eventos que atingiram o Paraná em 2024 ABAIXO.
Dados do Paraná em 2024
>> 129 municípios atingidos
>> 197 ocorrências
>> 177.496 pessoas afetadas
>> 32 óbitos
(Fonte: SISDC – Sistema Informatizado de Defesa Civil)
Deixe seu comentário
INCINERAÇÃO DE RESÍDUOS: SOLUÇÃO TECNOLÓGICA OU RISCO AMBIENTAL?
TORNADOS NO SUL DO BRASIL E OS DESAFIOS PARA A ENGENHARIA, O PLANEJAMENTO URBANO E A GESTÃO PÚBLICA
NR-01: O RISCO MUDOU, E A PREVENÇÃO TAMBÉM
ELEIÇÕES 2026 DO SISTEMA CONFEA/CREA E MÚTUA MOBILIZAM PROFISSIONAIS EM TODO O PAÍS
PRÊMIO INOVAÇÃO E BOAS PRÁTICAS NOS MUNICÍPIOS: CONSTRUINDO…
CERTIFICAÇÕES MOVIMENTAM O MERCADO DA ENGENHARIA E REDEFINEM PADRÕES DE COMPETITIVIDADE
FISCALIZAÇÃO DO CREA-PR REFORÇA PRESENÇA PROFISSIONAL NA PRODUÇÃO ANIMAL
FISCALIZAÇÕES TEMÁTICAS E METAS NACIONAIS
PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO FORTALECE GOVERNANÇA…
ENGENHARIA BRA NO CENTRO DA GOVERNANÇA CLIMÁTICA
VER Matérias Revista Crea-PR