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Protagonismo feminino

Publicado em 29 de fevereiro de 2024

Apesar de muitos desafios, o número de mulheres cientistas vem aumentando, entre elas, a Engenheira Agrônoma Mariangela Hungria se destaca

Laboratório da Embrapa Soja

O portal acadêmico Research.com divulgou a segunda edição do ranking de melhores cientistas em diversas áreas do conhecimento. Para definir a colocação dos profissionais na listagem, são analisados o número de artigos e a quantidade de citações, além de fatores como prêmios, bolsas e demais reconhecimentos concedidos por instituições de pesquisa e agências governamentais. Os procedimentos para a escolha, segundo o site, seguem critérios de transparência e métricas baseadas em dados de fontes confiáveis.

O nome da Engenheira Agrônoma Mariangela Hungria aparece na categoria “Ciência de Plantas e Agronomia”. Lá estão listados dois mil cientistas de todo o mundo e 52 são brasileiros. Destes, nove mulheres. Não é a primeira vez que o nome dela figura no ranking. Em 2022 estava na primeira posição brasileira e única da América do Sul. Mariangela também já recebeu o Prêmio Destaque Profissional do Crea-PR e é hoje uma das mais respeitadas cientistas do mundo em sua área de pesquisa.

Doutora em ciência do solo e pesquisadora da Embrapa Soja, o reconhecimento é, para ela, uma realização pessoal. “Desde criança eu queria ser pesquisadora e dediquei minha vida aos estudos e à carreira. Ver isso sendo reconhecido não só no Brasil, mas no mundo, é muito bom”, afirma.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora, que também é professora na Universidade Estadual de Londrina (UEL), ressalta a importância de pesquisadores brasileiros alcançarem mais destaque, principalmente as mulheres. “Fiquei feliz que tivemos um aumento de brasileiros no ranking Research.com. Ano passado eram 34 e agora são 52, mas o Brasil é um país agrícola e somos considerados um celeiro do mundo. Somos líderes em várias pesquisas, especialmente na minha área, que é de uso de microrganismos na agricultura, mas também em outras áreas como no plantio direto e na rotação de culturas. Com toda essa bagagem, acredito que mais pesquisadores brasileiros deveriam figurar nesse ranking de 2 mil cientistas”, avalia.

Por outro lado, Mariangela admite que a carreira de pesquisador no País não é fácil. “Enfrentamos falta de investimentos e é muito difícil estar neste ranking, é preciso muita pesquisa e publicações em revistas, que são caras. Não temos dinheiro suficiente para pesquisar e menos ainda para publicar, o que limita o acesso internacional aos nossos resultados. Existe uma crise na pesquisa agropecuária no Brasil, relata”.

Prêmio Destaque Profissional do Crea-PR

“A premiação é um fato de muito orgulho para as profissionais do setor: Engenheiras, Agrônomas, pesquisadoras e cientistas que atuam na Agronomia. A premiação recebida pela Mariangela Hungria demonstra a capacidade das mulheres Engenheiras em contribuir para o desenvolvimento tecnológico do setor produtivo agrícola, com o uso de práticas adequadas à realidade brasileira, e com uso de tecnologias eficientes com o aproveitamento dos recursos naturais para melhorar a produtividade e renda dos agricultores”, avalia a Engenheira Agrônoma Adriana Baumel, coordenadora do Comitê Mulheres do Crea-PR.

Segundo ela, a ocupação dos espaços em várias áreas e também na pesquisa, tem sido um avanço, mesmo com a falta de incentivo e barreiras culturais e sociais. “Por meio de políticas públicas de valorização e reconhecimento da capacidade intelectual, as mulheres deverão ocupar um papel fundamental no desenvolvimento da agropecuária nacional”, prevê.

Ela explica que este reconhecimento é um dos pilares do trabalho do Comitê Mulheres do Crea-PR. “O objetivo é atuar em defesa dos direitos das mulheres por meio da igualdade de oportunidades e pelo incentivo para ocupação dos espaços de liderança na atividade profissional e no Sistema Confea/Crea e Mútua, por sua capacidade e conhecimento técnico”, elucida.

Um olhar sobre a área de pesquisa

“Sou muito grata de ter tido a oportunidade de construir minha carreira em uma empresa pública. Quando me formei, há mais de 40 anos, se o objetivo do aluno era trabalhar com pesquisa ele obrigatoriamente tinha que ir para o setor púbico”, lembra Mariangela.

Soja in vitro 

Foi assim que iniciei a minha carreira na Embrapa. “Era uma empresa nova cheia de ideias e oportunidades. Naquele tempo não havia espaço para pesquisa no setor privado. E esta foi uma mudança que presenciei na carreira. Agora, a iniciativa privada também faz pesquisa de cultivares, máquinas, tecnologias e isso traz benefícios a todos”, ressalta.

“Com a escassez de concursos e incentivos na área pública, a oportunidade de também fazer pesquisa e buscar inovação na área privada é muito bem-vinda”, conta.

Dados

Segundo números Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação ainda há disparidade de gênero por áreas de conhecimento. Nas ciências exatas e da terra, 35% dos bolsistas são mulheres; em engenharias e computação, elas são 33,6% – ou seja, 1/3 apenas, enquanto em outras áreas, como linguística, letras, artes e áreas da saúde, 66% dos bolsistas são mulheres, percentual mais próximo da participação feminina na graduação.

Um sonho de infância

Conheça mais sobre a história de vida da pesquisadora

– Conte sobre sua trajetória pessoal e profissional

Tenho 65 anos e desde criança queria ser cientista e microbiologista. Pesquisava coisas e adorava as histórias em quadrinhos do professor Pardal. Com oito anos li um livro sobre a vida de microbiologistas e decidi que era o que eu queria. Estudei até os dez anos no interior de São Paulo e daí fui estudar na capital com bolsa em colégio particular. Depois cursei Engenharia Agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ).

– Como foi a graduação e início da carreira?

Na graduação foi desafiador porque engravidei e tive duas filhas – Carol e Marcela. Foi um tempo complicado porque cursei a faculdade integral e cuidava das duas crianças. Mas não queria desistir do meu sonho. Eu já tinha despesas, por conta das crianças, e pensei em procurar um emprego, mas me candidatei a uma bolsa da Fundação de Pesquisa do Estado de São Paulo. Ganhei a bolsa e foi assim que pude seguir com os estudos. Fiz mestrado e doutorado. Não era fácil economicamente, mas hoje vejo que valeu a pena. Criei minhas filhas e realizei meus sonhos.

– E a vida em família como é?

Eu e minhas filhas praticamente crescemos juntas porque eu tinha 19 anos quando virei mãe. Na pesquisa, elas iam comigo regar plantas de experimentos e à noite eu trabalhava muito. Fiz pós-doutorado nos Estados Unidos e lá ficamos só nós três. Isso teve como resultado sermos muito unidas. Elas se tornaram meu equilíbrio emocional e a razão para eu ir adiante. 

Marcela é Pessoa com Deficiência (PcD) intelectual e foi meu incentivo a ter foco e perseverança porque eu queria dar a ela acesso aos melhores tratamentos.

Minha filha Carol é jornalista e mora em São Paulo. Em casa hoje moram a Marcela e há dez anos também minha mãe, que tem 92 anos e mal de Parkinson, e a mimamos muito. Uma família um pouco diferente, mas com muito amor.

– Quais seus hobbies?

Gosto de plantas, flores (especialmente orquídeas). Em casa tenho um pouco de tudo, menos soja pra dar um descanso (risos). Também gosto de ler romances e biografias, mas atualmente o trabalho e a família tem sido meu foco e não tenho tempo para essas atividades. Amo viajar. Procuro fazer uma viagem para algum lugar exótico todo ano.

A Embrapa aumentou muito as pesquisas, porém encolheu em número de funcionários. Eram 10 mil quando entrei e hoje são menos de oito mil. O cultivo da soja no Brasil subiu de três milhões para 40 milhões de hectares, mas na Embrapa Soja o número de pesquisadores não aumentou. Então, estamos sob muita pressão. 

Meu tempo livre é levar minha filha especial para fazer o que ela gosta, que é ir ao cinema ver desenhos e passear no shopping. Nas minhas horas livres eu quero fazê-las felizes.

– Uma palavra para definir o passado e o futuro

“Bem vivido” representa meu passado. Não me arrependo de nada do que fiz. Para o futuro a palavra é “retribuição”.  A vida profissional me deu muito mais do que eu esperava. Recebi vários prêmios, inclusive fui homenageada pelo Confea e pelo Crea, o que me emocionou muito porque na minha época de faculdade mulher não fazia Engenharia Agronômica, ainda mais uma mulher que engravidou “por acidente”. Consideravam que eu tinha uma possibilidade mínima de sucesso. E deu tudo certo, então eu quero retribuir. Estou fazendo uma associação com recursos próprios, a “Htrês”, que dará prêmios e incentivos a jovens mulheres pesquisadoras. 

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