Sem controle
Brasil não tem plano eficiente para prevenção de acidentes naturais. Enquanto isso, ONU aponta uma tragédia no país a cada dois meses e diz que número vai aumentar

Relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta 7,5 milhões de brasileiros atingidos por 60 catástrofes naturais na última década. Média de seis por ano. Uma a cada dois meses. A maioria (37), enchentes. Outras 10, deslizamentos e tempestades.
E a tendência, diz a ONU, é que desastres assim aumentem com o aquecimento do planeta. “A preparação para desastres não é optativa para os governos. É uma obrigação perante os cidadãos”, diz Margareta Wahlstrom, representante das Nações Unidas para a Redução de Desastres.

Em janeiro, depois da tragédia que atingiu a região serrana do Rio, o governo anunciou a criação de um Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais. Um projeto que deve ficar pronto em quatro anos. Por que só após o pior desastre natural da história do Brasil? E o que explica a leniência na implan tação de um plano eficiente? Para o engenheiro de segurança e agrimensor Alvadi Coelho, falta vontade política. “Concordo com o que diz o presidente do CREA-PR, Álvaro Cabrini. Os governos precisam de uma visão mais técnica e menos política. Faltam profissionais de tecnologia. A ciência avançou, mas os governos não se beneficiam desse avanço”, afirma. Coelho é autor do caderno técnico “Prevenção de Catástrofes”, editado pelo CREA-PR.
Cabrini reforça: o Brasil precisa de planejamento e planos diretores que atendam os preceitos da ciência e os interesses dos cidadãos. “Precisamos de melhores sistemas de monitoramento, trabalhar com contenção de encostas, dragagem de rios, indicadores que permitam anunciar desastres e evadir a população com antecedência”, diz. “É o momento de a sociedade olhar e valorizar mais a importância de contar com quadros técnicos qualificados e especializados na gestão pública. Estes profissionais têm muito a contribuir na estruturação de um planejamento que minimize os danos causados por desastres naturais.”

O conselheiro federal e engenheiro agrônomo Kleber Souza dos Santos, do CONFEA, lembra que o preparo faz toda a diferença. “No Haiti, morreram cerca de 200 mil pessoas em um terremoto de 7 pontos. No Japão, o abalo de 8,9 vitimou menos de 15 mil cidadãos. Isso se deve basicamente ao planejamento e antecedência.”
O geólogo e consultor da ONU para grandes desastres, Renato Eugênio de Lima, segue a mesma linha. “É possível avaliar o risco, prever o tipo e onde um acidente natural pode ocorrer. Antecipar suas consequências. Mas governo e sociedade, em todos os níveis, têm que assumir responsabilidades, evitar soluções emergenciais provisórias que só prolongam eternamente os problemas”, diz. Lima é também professor da UFPR e coordenador do Cenacid/UFPR (Centro de Apoio Científico em Desastres).
GOVERNO FEDERAL
Meta é mapa de riscos
» O governo federal promoveu em abril o I Seminário Internacional sobre Gestão Integrada de Riscos e Desastres. Do encontro, saiu uma série de medidas.
» Entre as principais, está o mapeamento completo, até o final de maio, das cidades e áreas que são consideradas de alto risco para a ocorrência de tragédias naturais. No Brasil, pelo menos cinco milhões de pessoas moram em áreas de risco. São 500 locais com perigo de deslizamento e outros 300, de inundação.
» Esse mapeamento, diz o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, integra o Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais, anunciado em janeiro e previsto para ficar totalmente pronto em quatro anos.
» Na área legislativa, o objetivo é mudar o estatuto da cidade para coibir a ocupação das áreas irregulares e de alto risco, que estão sendo cadastradas e mapeadas.
» Outra medida é a criação de um cartão para transferência de recursos para estados e municípios atingidos por acidentes naturais, que deve valer a partir de junho. Segundo o ministro, o cartão vai agilizar a liberação de verbas emergenciais. Evita a necessidade de abertura de conta específica.
» Durante o seminário, o professor Antônio Edésio Jungles, do Ceped/UFSC (Centro de Estudos de Prevenção e Desastres da Universidade Federal de Santa Catarina), disse que a criação de um centro de alerta de gestão de risco e desastre deve ser prioridade urgente, uma política de estado.
» Também destacou a necessidade de levar a prevenção para dentro das escolas e fazer a recuperação do cidadão impactado, e não apenas dos danos materiais. Segundo o professor, “gerenciar o futuro é possível, mas as decisões têm que ser tomadas agora”. (com informações do Portal Brasil)
CONHECIMENTO TÉCNICO
Profissionais podem contribuir
CONFEA aprovou em março pedido de celebração de convênio com o CREA-PR para repasse de R$ 100 mil a serem usados em trabalhos técnicos voltados a diagnósticos, laudos e levantamentos que auxiliem os municípios atingidos pelas fortes chuvas. O objetivo é oferecer o conhecimento técnico dos profissionais da Engenharia, Arquitetura, Agronomia e Geociências como contribuição aos planos de segurança e atendimento de necessidades urgentes relacionadas a trabalhos técnicos de Engenharia. As atividades serão executadas por profissionais de forma voluntária. As despesas relativas a deslocamentos, alimentação e Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), por exemplo, são alguns dos serviços que serão custeados pela verba concedida pelo Conselho Federal.
Morretes e Antonina decretaram estado de calamidade. Paranaguá e Guaratuba, de emergência. Segundo Cabrini, o Ministério Público de Paranaguá já procurou o Conselho solicitando uma atuação pontual no litoral.
“Trabalhamos agora na forma de como atender ao pedido. Com certeza envolveremos os profissionais para promover os estudos necessários e dar um retorno breve à demanda”, diz.
A engenheira agrônoma Ruth Adriana Ribeiro Pires, da Emater, sugere a criação de uma equipe técnica para uma vistoria imediata no litoral, devido ao grande número de pontos de risco ainda ocupados por famílias.
“Desde os acontecimentos no litoral a Emater realiza levantamentos sobre a situação. As perdas na agricultura chegam a 100% em alguns casos. Há também perdas na estrutura das propriedades, estradas, deslizamentos, água de consumo”, conta. “Com a enchente e deslizamentos ocorridos fica evidente a falta de projetos de planejamento de ocupação de solo, urbanismo e infraestrutura”, diz. Mais de 100 profissionais cadastraram-se no Conselho para contribuir com as demandas que forem apresentadas.
A contribuição das diversas áreas da Engenharia em desastres
Engenharia Civil
Atua na reconstrução de estruturas críticas como pontes, estradas, estações de tratamento de água e outras que forem comprometidas. Seus profissionais são responsáveis por projetar e supervisionar a construção de novas estruturas, garantindo que sejam feitas de forma segura e resiliente a futuros eventos climáticos.
Engenharia Elétrica
Essencial para restaurar o fornecimento de energia elétrica nas áreas atingidas. Seus profissionais trabalham na reparação e substituição de linhas de transmissão, subestações e outros equipamentos elétricos danificados, garantindo que as comunidades afetadas tenham acesso confiável à eletricidade.
Engenharia Sanitária
Atua de forma a recuperar sistemas de água e saneamento que foram comprometidos. Seus profissionais são responsáveis por projetar, instalar e manter novos sistemas de tratamento de água, redes de distribuição e infraestruturas de esgoto, garantindo o acesso à água potável e ao saneamento básico para as comunidades afetadas.
Engenharia Ambiental
Avaliar e mitigar os danos ambientais causados pelo evento extremo. Seus profissionais trabalham na remediação de áreas contaminadas, na restauração de ecossistemas afetados e no desenvolvimento de soluções de drenagem e controle de enchentes, visando minimizar os impactos futuros de eventos climáticos extremos.
Engenharia de Agrimensura
Desempenha papel no mapeamento e planejamento territorial das áreas afetadas. Seus profissionais são responsáveis por realizar levantamentos topográficos, mapear a extensão dos danos e identificar áreas de risco, fornecendo informações essenciais para o planejamento da reconstrução e a tomada de decisões estratégicas.
Engenharia Florestal
Fundamental para a recuperação das áreas verdes e ecossistemas afetados pela inundação. Seus profissionais trabalham na recuperação da vegetação, na restauração de habitats naturais e no desenvolvimento de soluções de drenagem e controle de erosão, visando minimizar os impactos ambientais e melhorar a resiliência da região.
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